Tuesday, March 29, 2016

aeiou

Ei! Aí há um ioiô?
Há. Ói.
O ioiô é o ó?
É.
Ah. Eu ia ao auê aí.
Ãã?
O auê é aí, ou é o…?
É, ué.
Eu ia aí.
E o ioiô? Há o ioiô e o auau.
Uau! …
E aí?
Um ioiô e um auau, é?
É.
Ãã… Ó, eu ia ou o aio ia.
Há um aio?
Há.
Aiaiaiai.

Friday, December 18, 2015

O ENSINO DE CIÊNCIAS NO BRASIL

transcrito duma fala de Richard Feynman, publicada em 1985
tradução: Pablo Zumarán


Em relação ä educação no Brasil, tive uma experiência muito interessante [em1951]. Eu estava lecionando prum grupo de alunos de mestrado –pois, naquela época, o Brasil não oferecia muitas oportunidades pra cientistas altamente qualificados. Esses alunos já tinham concluído muitos cursos, e aquele seria seu curso mais avançado em eletricidade e magnetismo –equações de Maxwell &c.
A universidade ocupava vários prédios de escritórios distribuídos pela cidade, e o curso que eu dava era num prédio com vista pruma baía.
Descobri um fenômeno muito esquisito: quando eu fazia uma pergunta, os alunos respondiam imediatamente. Mas quando eu fazia a pergunta de outra forma, a mesma questão sobre o mesmo assunto –pra mim, pelo menos–, eles não sabiam responder!
Por exemplo, certa vez, falando sobre polarização de luz, dei à eles umas lâminas de filme polarizado, ou polaróide. O polaróide só deixa passar luz cujo vetor elétrico esteja numa determinada direção. Então expliquei como dá pra saber a direção da polarização da luz, bastando checar se o polaróide está opaco ou transparente.
Primeiro, pegamos duas lâminas de polaróide e as giramos até a posição em que deixavam passar o máximo de luz. Portanto, as duas lâminas estavam deixando passar luz polarizada na mesma direção: o que atravessava uma das lâminas também atravessava a outra. Mas, aí perguntei como daria pra saber a direção absoluta da polarização à partir de uma única lâmina de polaróide.
Eles não faziam a menor idéia.
Eu sabia que isso requeria uma certa engenhosidade; então dei uma pista:
—Olhem a luz refletida vindo da baía lá fora.
Ninguém disse nada.
Aí eu disse:
—¿Já ouviram falar do Ângulo de Brewster?
—¡Sim, senhor! O Ângulo de Brewster é o ângulo em que a luz fica completamente polarizada quando refletida por um meio com índice de refração.
—E ¿em qual direção a luz é polarizada quando refletida?
—A luz é polarizada perpendicularmente ao plano de reflexão.
Até hoje em dia, eu mesmo tenho que raciocinar pra me lembrar disso; mas ¡eles sabiam de cor! ¡Sabiam até que o índice é a tangente do ângulo!
Eu disse:
—Então?
Continuaram em silêncio. Tinham acabado de me dizer que a luz refletida por um meio com índice, tal como a baía lá fora, era polarizada. Tinham até falado da direção da polarização.
Eu disse:
—Olhem a baía lá fora através do polaróide. Agora virem o polaróide.
—Ah! ¡Tá polarizada!— disseram.
Depois de muita sondagem, finalmente descobri que os alunos tinham decorado tudo, mas não sabiam o que as frases significavam. Quando ouviam “a luz refletida por um meio com índice”, não sabiam que isso significava um material tal como a água. Não sabiam que “a direção da luz” é a direção em que você enxerga uma coisa quando está olhando pra ela, e assim por diante. Tudo estava totalmente decorado, mas nada fora traduzido em palavras que fizessem sentido real. Assim, se eu perguntasse: “¿Quê é o Ângulo de Brewster?” eu estava entrando no computador com a senha correta. Mas se eu dissesse: “Olhem a água,” não acontecia nada –eles não tinham nada com o código “Olhem a água.”

Depois, assisti à uma aula na faculdade de engenharia. A aula era assim: —Consideram-se dois corpos … equivalentes … se o mesmo torque … resultar … na mesma aceleração. Consideram-se dois corpos equivalentes se o mesmo torque resultar na mesma aceleração.
Os alunos todos sentados ali copiavam o ditado e, quando o professor repetia a frase, checavam pra confirmar que tinham anotado corretamente. Aí anotavam a frase seguinte, e a próxima, e assim por diante. Eu era o único ali sabendo que o professor falava de corpos com o mesmo momento de inércia, mas era difícil articular isso à partir do que ele dizia.
Eu não via como eles aprenderiam alguma coisa à partir daquilo. O assunto era o momento de inércia, mas nada se falava de como é mais difícil abrir uma porta se você tem que empurrar objetos pesados no outro lado, e fica mais fácil quando os objetos estão perto da dobradiça –nada!
Depois da aula, conversei com um aluno:
—Vocês fizeram todas essas anotações. ¿Quê vão fazer com elas?
—Ah, vamos estudar. Vai cair na prova.
—E ¿como vai ser a prova?
—Muito fácil. Já dá pra te dizer agora uma das questões.
Olhou no caderno e disse:
—«¿Quando dois corpos são equivalentes?» E a resposta é: «Consideram-se dois corpos equivalentes se o mesmo torque resultar na mesma aceleração.»
Então, percebe? Eles conseguiam passar nas provas, “aprender” tudo aquilo, e mesmo assim podiam não saber nada, exceto aquilo que tinham decorado.

Depois, fui ver um exame de admissão prä faculdade de engenharia. Era uma prova oral, e consegui permissão pra ouvi-la. Um dos alunos foi absolutamente fantástico: ¡respondeu tudo certinho! A banca examinadora lhe perguntou o que era ‘diamagnetismo’ e ele respondeu perfeitamente. Depois perguntaram:
—Quando a luz incide à um certo ângulo sobre um material duma certa espessura e com um certo índice N, ¿quê acontece com a luz?
—Ela ressurge paralela à si mesma, deslocada.
—E ¿deslocada em quanto?
—Não sei, mas posso calcular.
E aí ele calculou. Ele era muito bom.
Mas, nessa altura, eu já tinha minhas suspeitas. Depois da prova oral, abordei esse brilhante jovem e expliquei que eu era do Zeuá e que queria lhe fazer umas perguntas que não afetariam de forma alguma os resultados da prova. A primeira pergunta que fiz foi:
—¿Pode me dar um exemplo duma substância diamagnética?
—Não.
Aí perguntei:
—Se este livro fosse feito de vidro e eu enxergasse através dele alguma coisa em cima da mesa, ¿quê aconteceria com a imagem se eu inclinasse o vidro?
—Ela seria defletida, em duas vezes o ângulo em que você virasse o livro.
Eu disse:
—Você não tá confundindo isso com um espelho, tá?
—¡Não, senhor!
Ele tinha acabado de dizer na prova que a luz seria deslocada, paralela à si mesma e, portanto, que a imagem se deslocaria prum lado, mas não seria alterada em ângulo nenhum. Tinha até calculado em quanto ela se deslocaria. Mas não tinha sacado que o vidro é um material com índice e que o cálculo dele se aplicava à minha pergunta.
Na faculdade de engenharia, dei um curso sobre métodos matemáticos na física, no qual tentei mostrar como resolver problemas por tentativa e erro. É uma coisa que as pessoas geralmente não aprendem; então comecei dando alguns exemplos simples de aritmética pra ilustrar o método. Fiquei surpreso quando apenas oito entregaram a primeira tarefa, dentre cerca de oitenta alunos. Na aula seguinte, pus bastante ênfase na necessidade de tentar resolver a tarefa, e não só ficar ali me vendo fazer a coisa.
Depois dessa aula, uns alunos formaram uma pequena delegação pra falar comigo, e me disseram que eu não tinha entendido a formação acadêmica deles, que eles podiam estudar sem resolver os problemas, que eles já sabiam aritmética, e que essa coisa toda estava abaixo do nível deles.
Mas continuei o curso e, fosse qual fosse o nível de complexidade, que òbviamente ia ficando cada vez mais avançada, eles não entregavam uma única tarefa. É claro que eu já tinha percebido o problema: ¡eles não sabiam como!

Outra coisa que nunca consegui foi que eles me fizessem perguntas. No fim, um aluno me explicou:
—Se eu fizer uma pergunta durante a aula, depois todos vão me xingar: «¿Por quê você tá nos fazendo perder tempo no curso? Tamos tentando aprender as coisas, mas tuas perguntas tão interrompendo o professor.»
Era como se estivessem contando vantagem. Ninguém sabe o que está acontecendo e todos se mantém no mesmo nível fingindo que sabem. Todos fazem de conta que dominam a matéria, e se um aluno admitir por um momento que algo está meio confuso e faz uma pergunta, os outros se enchem de arrogância, como se não houvesse confusão nenhuma, e dizem äquele aluno que ele está desperdiçando o tempo dos demais.
Expliquei como é útil trabalhar em grupo, pra discutir as dúvidas e solucioná-las, mas eles também não queriam isso pois iam perder a pose se tivessem que perguntar algo à um colega. Lamentável! Eles, gente inteligente, se esforçavam pacas, mas recaíam nessa maneira risível de pensar, nessa forma estranhíssima de “educação” reiterativa, que não quer dizer nada, ¡absolutamente nada!

Ao final do ano acadêmico, os alunos me pediram pra dar uma palestra sobre minha experiência de lecionar no Brasil. Na palestra, estariam presentes não só alunos, mas também professores e autoridades. Então, pedi que prometessem que eu poderia dizer o que eu quisesse. Eles disseram:
—Claro. Tamos num país livre.
Então fui dar a palestra levando os livros de física elementar que eles usavam no primeiro ano de faculdade. Eles achavam esses livros bons pois os tipos de letras diferentes –negrito, não-negrito &c– mostravam as coisas mais importantes pra se decorar, as coisas menos importantes, e assim por diante.
Imediatamente, alguém disse:
—Você não vai falar do livro-texto, vai? O cara que o escreveu tá aqui, e o livro é muito bem conceituado.
—Vocês me prometeram que eu poderia dizer o que eu quisesse.
O auditório estava lotado. Comecei definindo ‘ciência’ como uma maneira de compreender o comportamento da natureza. Então perguntei:
—¿Qual seria um bom motivo pra lecionar ciências? Òbviamente, nenhum país pode considerar-se civilizado à menos que… e blablabla.
Eles todos balançavam a cabeça concordando, pois eu sabia que essa é a concepção deles.
Aí eu disse:
—Isso é claramente absurdo; pois ¿pra quê achar que temos que nos igualar à outro país? Temos que ensinar ciências por um bom motivo, um motivo sensato, não apenas porque outros países ensinam.
Aí falei sobre a utilidade da ciência e sua contribuição prä melhoria das condições de vida, e coisas do tipo. No fundo, eu estava dando umas cutucadas neles.
Aí eu disse:
—O principal intuito desta palestra é demonstrar à vocês que no Brasil não se ensina ciência alguma.
Vi que se incomodaram, pensando “Quê? ¿Não se ensina ciência? ¡Que maluco! Temos todos esses cursos aí…”
Aí eu disse que uma das primeiras coisas à me chamar a atenção quando cheguei ao Brasil foi ver meninos do primário comprando livros de física nas livrarias. Tem tantas crianças aprendendo física no Brasil, começando muito mais cedo do que no Zeuá, que impressiona o fato de não haver muitos físicos no Brasil. ¿Por quê, isso? Tantas crianças se esforçando, mas o resultado não aparece.

Aí fiz uma analogia com um acadêmico de grego que adora a língua, e sabe que seu país tem poucas crianças estudando grego. Mas aí ele visita outro país, onde fica deslumbrado de ver todos estudando grego –até mesmo as criancinhas do primário. Ele testemunha a prova oral dum aluno que está se formando em grego e lhe pergunta:
—¿Quais as idéias de Sócrates sobre a relação entre a Verdade e a Beleza?
…e o aluno não consegue responder. Então pergunta ao aluno:
—¿Quê disse Sócrates à Platão no Terceiro Simpósio?
O aluno se ilumina e começa: “Blablabla” –repete tudo que Sócrates disse, tintim por tintim, falando grego lindamente.
Mas acontece que no Terceiro Simpósio, ¡Sócrates falou justamente da relação entre a Verdade e a Beleza!
O que esse acadêmico de grego descobre é que os alunos nesse outro país estudam grego aprendendo primeiro à pronunciar letras, depois palavras e daí frases e parágrafos. Conseguem recitar, palavra por palavra, o que Sócrates disse, sem perceber que aqueles sons gregos na verdade querem dizer coisas. Pro aluno, elas são apenas sons artificiais. Ninguém jamais os traduziu pra palavras que os alunos consigam entender.
Eu disse:
—É assim que me parece quando vejo vocês ensinando ‘ciências’ aos alunos aqui no Brasil. (¡Que paulada, hem?)
Aí ergui o livro-texto de física elementar que eles usavam.
—Em lugar nenhum deste livro menciona-se um resultado experimental, exceto numa página em que aparece uma bola descendo um plano inclinado, em que cita-se a distância que a bola percorreu em um segundo, dois segundos, três segundos, e assim por diante. Os números têm “erros” –ou seja, se você olhar, acha que tá vendo resultados experimentais pois os números tão um pouco acima ou um pouco abaixo dos valores teóricos. O livro fala até sobre a necessidade de corrigir erros experimentais –o que é ótimo. O problema é que, se você calcular o valor da constante de aceleração pra esses valores, obterá a resposta correta; mas se você realmente soltar uma bola num plano inclinado, ela terá uma inércia pra começar à rodar e, se você fizer o experimento, produzirá cinco sétimos da resposta correta, por causa da energia extra necessária pra iniciar a rotação da bola. Portanto, o único exemplo de “resultados” experimentais no livro foi obtido dum experimento que nunca houve. Ninguém soltou essa bola, pois ¡tais resultados jamais seriam obtidos!

—Descobri mais uma coisa— continuei. —Se eu abrir o livro aleatòriamente, colocar o dedo numa frase numa página qualquer e lê-la, posso demonstrar o problema: que isto não é ciência, mas decoreba, em todos os casos. Portanto, posso me arriscar o suficiente pra abrir o livro agora, perante esta platéia, colocar meu dedo numa página, ler o que encontro e demonstrar isso à vocês.
E foi o que fiz. Brrrrrrrup: enfiei um dedo e comecei à ler:
—«Triboluminescência. Triboluminescência é a luz emitida quando se pressiona um cristal.»
Eu disse:
—E aí, ¿viram alguma ciência? Não! Só se definiu o sentido duma palavra em termos de outras palavras. Nada se disse sobre a natureza: quais cristais produzem luz quando se os pressiona, ou por quê produzem luz. ¿Viram algum aluno fazendo o experimento em casa? Não saberá o que fazer. Mas si, em vez disso, estivesse escrito: “Quando você pega um torrão de açúcar e o pressiona com um alicate no escuro, verá uma luz azulada. Alguns outros cristais também fazem isso. Ninguém sabe por quê. Esse fenômeno se chama ‘triboluminescência’,” então alguém fará o experimento em casa. Desse modo, a natureza fará parte da experiência do aluno.
Usei esse exemplo pra mostrar à eles, mas não faria qualquer diferença em qual página eu enfiasse o dedo; era isso em toda página.
Por fim, disse que não conseguia ver como alguém podia ser educado nesse sistema reiterativo, no qual a pessoa passa em provas e ensina outros à passar em provas, mas ninguém sabe nada.
—No entanto— eu disse, —devo tar enganado. Em meu curso, dois alunos foram muito bem, e um dos físicos que conheço foi inteiramente educado no Brasil. Portanto, pra algumas pessoas deve ser possível se esgueirar pelo sistema, mesmo ele sendo ruim.

Bom, depois de minha palestra, o chefe do departamento de educação científica se levantou e disse:
—O Sr Feynman nos disse algumas coisas difíceis de ouvir, mas vê-se que ele realmente adora ciências e foi sincero em suas críticas. Assim sendo, acho que devemos lhe dar atenção. Vim aqui hoje sabendo que temos alguma doença em nosso sistema educacional; mas ¡constatei que o que temos é um câncer!— e sentou-se.
Isso abriu caminho pra outras pessoas se expressarem, e houve uma grande agitação. Todos se levantavam e davam sugestões. Os alunos formaram uma comissão pra mimeografar as aulas antecipadamente, e organizaram outras comissões pra fazer uma coisa ou outra.
Então aconteceu algo totalmente inesperado pra mim. Um dos alunos se levantou e disse:
—Sou um dos dois alunos à quem o Sr Feynman se referiu no final da palestra. Minha formação não foi no Brasil; estudei na Alemanha e só vim ao Brasil este ano.
O outro aluno que foi bem no curso disse algo semelhante. E o professor que eu tinha mencionado se levantou e disse:
—Estudei aqui no Brasil durante a guerra quando, felizmente, todos os professores estavam fora da universidade; então aprendi tudo lendo sòzinho. Portanto, na verdade, não estudei no sistema brasileiro.
Por essa, eu não esperava. Sabia que o sistema era ruim, mas 100 por cento –era terrível!
Como eu estava no Brasil num programa patrocinado pelo governo do Zeuá, o Departamento de Estado me pediu pra escrever um relatório sobre minhas experiências lá, e nele escrevi os principais pontos dessa palestra que dei. Mais tarde fiquei sabendo, por um boato, que alguém no Departamento de Estado tinha comentado:
—Isso mostra como é perigoso enviar alguém tão ingênuo ao Brasil. Que pateta. Só pode causar encrenca. Não entendeu os problemas de lá.
¡Pelo contrário! Acho que essa pessoa no Departamento de Estado é que foi ingênua em achar que, só porque viu uma universidade com uma lista de cursos e descrições, isso é de fato o que era.

Wednesday, August 26, 2015

como usar rimas, ritmo, aliterações, regiões semânticas e contrastes pra dar a impressão de q vc tá dizendo alguma coisa

Me esfola o chão de cascalho a carne dos pés
cortando o caminho e o rumo sem volta nem ida.
Carrego meu peso e me peço q encontre através
do tempo um atalho, uma brecha, um buraco suicida,

pois cada ravina rochosa em q já tropecei
sangrando rasgado na ríspida queda inexata
mostrou-me q um corpo caindo obedece uma lei
mortífera e breve q nada e niguém desacata.

Não há o q dizer das dezenas de falsos trajetos.
No fundo do fosso, talvez no sopé do penhasco,
ali onde carne deu casa e comida aos insetos
e vermes q até mesmo äs ávidas aves dão asco,
ali, onde a trilha me traz pelos tortos e retos
desvios, desponta um sentido, talvez um fiasco.

Tuesday, July 29, 2014

burricismo, ignorantismo, feiurismo

«Mascaranhas ergueu o sobrolho, baixou a vista, cheirou o bigode, torceu a boca e chegou o queixo ao microfone.
–Olha, ouvinte, não precisa se ofender com o q eu disse, não, hem. Se ofender faz mal prä saúde, pô. Se cuida. Mas ¿como vc pode evitar de se ofender? É simples. Muito provàvelmente –não posso dizer com certeza, claro, mas muito provàvelmente– vc se ofendeu pois vossa inteligência e informação neste assunto tão ali na média, ou abaixo dela. Vc pode ter se ofendido só pq vc provàvelmente, neste assunto, é burro e mal-informado. Vc só precisa entender isso e aceitar como um fato da vida. Né? Mas olha, não tem problema vc ser burro ou mal-informado nisso. Todos nós somos burros ou mal-informados nalgum assunto. Ou melhor, só vejo um único probleminha, q é o de se ofender fàcilmente, pois gente burra e mal-informada não vai ter argumentos, não vai saber expressar sentimentos, não vai conseguir concatenar impressões num discurso coerente. Aí vc descamba pra se ofender. Lógico. Isso é reação do animalzinho q há em vc. Mas gente inteligente e bem informada num assunto não se ofende qdo se fala dele. Já viu? Então. A decisão inteligente é vc aceitar q é burro ou mal-informado neste assunto. Seria um primeiro passo pra vc não precisar ficar aí se ofendendo em vez de fazer algo útil.»
tirado de “LIVRO FICTÍCIO”, de Autor Conhecido

Em outra parte do “LIVRO FICTÍCIO”, Mascaranhas, acusado de preconceito por um ouvinte, responde:
«–Olha, ouvinte, não tenho nenhum preconceito contra gente de vossa laia, hein. ¿Tá me estranhando? Defendo abertamente q todos têm direito ä compreensão, até mesmo os burros; q todos têm direito ä informação, até mesmo os ignorantes; assim como defendo q todos têm direito ä feiúra, até mesmo os belos.»

Wednesday, July 09, 2014

sete à

Um jogo estranho
em nossa campanha,
sem glórias de antanho
e nenhuma façanha.

O comedor de ranho
usou de artimanha
melhor q o tacanho
juiz da Espanha.

Levamos um banho
e venceu-nos a sanha
do exato tamanho
da própria Alemanha.

E agora o rebanho
descendo a montanha
diz, rouco e fanho,
“Quê é q se ganha?
Quê é q se ganha?”

(Sim, fui eu q compus. E olha q nem sou brasileiro, nem sigo futebol, nem vi os jogos, e preferiria q 200 milhões de pessoas não fossem tão iguaizinhas.)

Wednesday, December 18, 2013

passado visionário

Somos hoje as piores previsões de ontem.

Thursday, October 03, 2013

regime

Vc não engorda o q come; vc engorda o q não caga.

Monday, March 25, 2013

vidrente

Uma vez vi o futuro claramente e minha previsão se realizou. Tinha 8 anos. Alguém esbarrou num copo em cima duma mesa. Caaara, no instante em q ele saiu de cima da mesa, eu PREVI o copo quebrando no chão. ENXERGUEI mesmo. Muitos milésimos de segundo depois, ele atingiu o chão e quebrou-se em vários cacos.

Fiquei perplexo.

Anos depois, deixei cair um prato no chão, previ o prato quebrar, mas não quebrou. Caiu bem em cima de meu pé e doeu pacas

Havia perdido o poder.

Dizem q é preciso ser criança.

Mas aprendi uma lição: si vc deixar cair um copo ou prato, pode aparar a queda com o pé, e salvá-lo. É um bom truque pra céticos.

Sunday, March 03, 2013

Meu cérebro é uma ONG sem fins lucrativos.

Thursday, November 15, 2012

três quartos

A memória é um mar de vagas.

Sunday, June 24, 2012

cpu

Jamais é computado
–ao menos por quem ama–
que o coração é um dado,
não é um programa.

Thursday, May 31, 2012

Sou um grande fã da hipocrisia alheia –torna dispensável a minha.

I'm a great fan of other people's hypocrisy –it makes mine unnecessary.

Friday, April 27, 2012

retruque ä crítica

Se a música é paixão q se declara,
o jazz é uma navalha q separa
quem toca de quem posa e executa,
quem ouve de quem meramente escuta.

Thursday, October 20, 2011

arrã

Finalmente uma letra prä musga do João Donato "A rã", q passa agora à se chamar "Arrã". Cante com a maravilhosa gravação lincada abaixo.

quando caguei não consegui mijar
quando mijei não consegui cagar
quando arrotei não consegui escarrar
quando escarrei não consegui arrotar

quando babei não deu pra vomitar
se vomitei, não consegui babar
quando chupei não consegui espirrar
quando espirrei não consegui chupar

quando gozei não consegui peidar
quando peidei não consegui gozar
quando trepei não consegui cagar nem vomitar


Sunday, September 18, 2011

nos moldes

No Projeto Fashion, vc pode ser in e no dia seguinte ser out, mas se a stylist defrisar com uns dreads e puser um pouco de blush, o look da top model pode ficar mais cool, e aí vc pode ser in de novo.

(palavras usadas no programa de estréia, 17set2011)

Wednesday, September 14, 2011

voz passiva

Quem espera é alcançado.
A necessidade é feita pela lei.
Cão que ladra não é mordido.

Tuesday, January 11, 2011

proverbs 73:612

Where a man may wonder, a thousand blunder.

Tuesday, August 24, 2010

neimedrópin

[Abaixo, um texto q escrevi prà Copa de Literatura Brasileira 2009. Com a suspensão da CLB este ano, o texto foi copiado alhures, mas infelizmente sem a listagem dos nomes no meio. Esta é a versão completa, com a listagem.]

Algumas semanas atrás fiquei doentinho de cama. Sem saco pra muita coisa, resolvi sucumbir a um de meus passatempos prediletos: analisar listas. Nas primeiras duas Copas, tinha notado q os oito livros a mim designados tinham algo em comum: todos eles citavam nomes de pessoas reais e famosas. Não só isso, mas q a grande maioria dessas pessoas eram estrangeiras e do 1° mundo. Fiquei meio intrigado com isso – pra não dizer traumatizado com o volume de name-dropping no livro do Tezza –, mas deixei passar. Foi só nesses dias de cama q o pensamento voltou.

Pra temperar o q vou dizer aqui, devo adiantar q, antes de ser convidado prà Copa, eu não lia literatura brasileira havia uns 25 anos. Em minha biblioteca havia um total de 3 livros de autores brasileiros: Vaca de nariz sutil, O coronel e o lobisomem, e uma antologia de Augusto dos Anjos. Já havia lido muito, mas fui perdendo os livros com o tempo. De ficção, leio muita literatura européia de mais de 50 anos; descontando alguns hispano-americanos, não leio muita coisa mais recente. De modo q não tava acostumado ao q vi nesses oito livros, embora citar nomes reais em livros de ficção não seja coisa nova ou desprestigiada na lit. bras. – vide Machado. Pelo q vejo da literatura européia q leio, a citação dum nome real raramente carece dum motivo temático: o nome, aquele nome em particular, tem um motivo pra estar ali, um motivo tramático q o autor explicita de alguma forma. Sabendo q um nome real denota muitas complexidades – estas às vezes antitéticas –, o autor não espera q o leitor tenha um conhecimento prévio do aspecto específico do nome q o fez inclui-lo no texto, em detrimento de qqer um dentre as dezenas de outros nomes possíveis. A menos q escreva um texto impressionista e/ou verborrágico, o autor consciente inclui um nome numa trama pq NESSA trama ele não tem outra escolha além de inclui-lo.

Por isso me assustei ao ler tantos nomes reais naqueles oito livros. Ok: desses oito, vou tirar os dois romances baseados em fatos históricos, Música perdida e Um defeito de cor. Abaixo, segue uma lista dos nomes reais citados nos outros seis, na ordem e na forma em q aparecem. E = estrangeiro, PE = produção estrangeira, B = brasileiro, PB = produção brasileira; nomes entre parênteses não são citados textualmente; eliminei os nomes com mais de 500 anos.

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As sementes de Flowerville
E: Neil Gaiman, Fermat, Vivaldi, Danny Glover, Florbela Espanca, Sylvia Plath, (Yutaka) Taniyama, (Goro) Shimura, Anna Akhmatova, The Strokes, Franz Ferdinand, Karl Marx, Jesus & Mary Chain, Bob Dylan, Georgia O'Keeffe, Paloma Picasso
PE: Sandman, Waltons, John Boy, Mary Ellen, Tarzan, Twilight Zone, Speed Racer, National Kid, Ultra Man, Jaspion, Super-Homem
PB: o Mug

Corpo estranho
E: Einstein, Rimbaud, (Etienne) Carjat, (Alfred) Stieglitz, Whitman, Margaret Mee, Linnaeus, E.Twining, P.S.Bury, S.A.Drake, Michelangelo, Gaudí, Dickens, Lewis Carrol, Van Gogh, (Erwin) Panofski, Cesare Ripa, Harrison Ford, Nadar (G-F.Tournachon), Kurt Cobain, Lucian Freud, Oscar Wilde, Alfred Douglas, Basquiat, Gertrude Stein, Marcel Proust, Simone de Beauvoir, Quino, Foucault, El Greco
PE: Vogue, National Geographic, Greenpeace, Turandot, As Ondas (de V.Woolf), Pip (de Dickens), Ahab (em Moby Dick), Miranda (de J.Mayhew), (Duquesa de) Guermantes, Mafalda, Tintin, Asterix
B: (C.Lispector, russa), Cruz e Lima (?), Alex Vallauri (etíope)

Lugares que não conheço, pessoas que nunca vi
E: Jayne Mansfield, Rita Hayworth, Marlon Brando, Groucho Marx, Velvet (Underground), Fats Domino, Tommy Dorsey
PE: Discovery Channel, On the Sunny Side of the Street
B: Pixinguinha, D. João VI (português), Lula
PB: Jornal Nacional, Bom Dia Brasil

Toda Terça
E: Alejandra Pizarnik, (Mario) Benedetti, Marlene Dietrich, Proust, Unica Zürn, (Lacan), madre Teresa de Calcutá, Deleuze, Heidegger, Frida Kahlo, Che Guevara, Compay Segundo, Pola Negri, Miró, Billie Holiday, Nina Simone, Juliette Gréco, Charles Aznavour
PE: (Moebius), Ulrica, Javier, (El lado oscuro de la luna), National Geographic, (Genealogies d'un crime), Cinderela, Branca de Neve, Nautilus
B: Corisco, Portinari

O dia Mastroianni
E: Mastroianni, Elvis Presley, Claudia Cardinale, Oscar Wilde, Jackie O., Buñuel, Éluard, Anita Ekberg, Sophia Loren, Beethoven, Luís XV, Schopenhauer, Miles Davis, Johnny de le Fleuve (Johnny Rivers? Johnny Rivera?), Ben Gazzara, Modiglianni, (Louise) Lulu Brooks, Tony Bennett
PE: Pernalonga, Herald Tribune, Mxyzptlk, Puttin' on the Ritz, Branca de Neve
B: Jorge Ben, Adele Fátima

O filho eterno
E: Thomas Bernhard, Søren Kierkegaard, Kipling, Rousseau, Balzac, Dostoiévski, James Joyce, Thomas Mann, Nietzsche, Da Vinci, John Langdon Haydon Down, príncipe Charles, Kennedy, Jerôme Lejeune, T.S.Eliot, Heidegger, Mendel, Jean Piaget, Horace McCoy, Grimm, Lamarck, Darwin, Aldous Huxley, Camus, (Karl) Marx, Freud, Álvaro Cunhal, Chaplin, Disney, Hemingway, Franco, Tolkien, Goethe, Günther Grass, John Steinbeck, Heinrich Böll, Scott Fitzgerald, Sartre, Dickens, Cortázar, Borges, Andy Warhol, Henrik Ibsen, Shakespeare, Münch, William Faulkner, Einstein, Joseph Conrad, Karl Jaspers, Vargas Llosa, García Lorca, Herman Hesse, Reich, Groucho Marx, Pasolini, Costa-Gravas, Kafka, Stanislavski, Jerry Lewis, Peter Sellers, Jung, Brecht, Manet, Van Gogh, Gauguin, Ensor, Yoko Ono, Miriam Makeba
PE: Admirável mundo novo, Dom Quixote, Comédia Humana, Ulisses (de Joyce), Leopold Bloom, Pangloss, Quatro Quartetos (de Eliot), O nascimento da inteligência na criança, Dr Strangelove, O homem revoltado, A origem da tragédia, Raskolnikoff, A montanha mágica, O inimigo do povo, Ricardo III, Paris é uma festa, Alfa Mais, Cem anos de solidão, A cidade e os cães, 2001 Uma odisséia no espaço, Decameron, Z, Sherlock (Holmes), Summerhill, Pokémon, Batman, Super Homem, Peter Pan, Bolinha, Comédia dos erros, Um convidado bem trapalhão, capitão Haddock, As confissões, A engrenagem, Tarzan, Dexter, Os sem-floresta, Astérix e Obélix, Meninas Superpoderosas
B: Carlos Drummond de Andrade, Vinicius de Moraes, Geraldo Vandré, Newton Freire-Maia, Monteiro Lobato, Nelson Rodrigues, Portinari, Jorge Amado, Luiz Delfino, Lamarca, Graciliano, Paulo Maluf, Marighella
PB: Revista de Letras, Jeca Tatu, Brás Cubas, O pasquim, O Estado de S. Paulo, Manual da guerrilha urbana, Emília, Jornal Nacional

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O q salta à vista imediatamente é a proporção de nomes estrangeiros (quase todos do 1° mundo) contra nomes brasileiros. Contando apenas os nomes de pessoas reais, eis o placar Estrangeiros x Brasileiros:

As sementes de Flowerville: 10 x 0
Corpo estranho: 30 x 3
Lugares que não conheço...: 7 x 3
Toda terça: 18 x 2
O dia Mastroianni: 18 x 2
O filho eterno: 68 x 13

Incluindo as produções culturais, as proporções ficam ainda mais gritantes:

As sementes de Flowerville: 26 x 1
Corpo estranho: 42 x 3
Lugares que não conheço...: 9 x 5
Toda terça: 27 x 2
O dia Mastroianni: 23 x 2
O filho eterno: 107 x 21

No caso de muitas citações, a preferência por nomes estrangeiros pode não significar nada. Em As sementes, essa preferência pode ser irônica; em Lugares, percebo até um certo sarcasmo nas poucas citações. As em Toda terça são as q tão mais próximas da intenção tramática; a grande maioria não são só nomes jogados ou citados: há uma teia de referências. Em Mastronianni, não são apenas os nomes q foram jogados: o livro todo é jogado – com algum charme petulante, mas jogado. Em Corpo estranho e O filho eterno, os nomes são citados com deferência e sem qqer ironia. Nestes dois, muitos nomes aparecem até mesmo em listas de quatro ou cinco nomes – presentes ali só pra estar ali e mais nada, embora em partes O filho eterno teja consciente da, digamos, subserviência: "Os escritores brasileiros somos pequenos ladrões de sardinha." (pg 104).

Claro q tou consciente das múltiplas variáveis. O autor escreve sobre o mundo q o cerca, e esse mundo contém esses nomes; o Brasil é apenas um país entre muitos e há trocentos mais nomes conhecidos estrangeiros do q brasileiros; ao se tornar citável, todo nome torna-se patrimônio da humanidade; e o autor escreve o q lhe dá na telha, ¿dá licença?

Sim, óbvio. Só q tou falando disso não como crítica literária, mas como descrição dum fenômeno – e acho q tou justificado em chamar isso de 'fenômeno'. Ano passado, fui a uma livraria, onde folheei vários livros brasileiros de ficção recentes e confirmei a impressão: extrapolando a relativamente pequena amostragem, concluo q não é um livro brasileiro aqui e outro ali; são livros às centenas; poucas exceções. É como se grande parte da ficção brasileira não se visse como literatura autônoma, q criasse seus próprios significados; é como se ela se arriscasse a existir apenas enquanto ancorada nos grandes influentes; como se seus autores vissem no Brasil pouco q valesse ser narrado sem o aval, sem o visto assinado dos "grandes" estrangeiros.

O déficit de autonomia na xeno-referência leva às vezes a desajeitos ou a potenciais mal aproveitados. Às vezes, soa como o proverbial japonês tocando samba. Por exemplo, em O filho eterno, o autor fala incontadas vezes de seus ideais adolescentes inspirados por Nietzsche e Rousseau, mas jamais atenta à ironia no paralelo entre, de um lado, o super-homem do primeiro e o bom-selvagem do segundo e, do outro, o pai e seu filho deficiente mental. Nietzsche é o Nietzsche de O nascimento da tragédia e só; Rousseau é o Rousseau da comunhão com a natureza e só. Me deu irque, a repetição exaustiva dos dois nomes sem jamais mencionar, sugerir ou sinalizar o paralelo com o pai e o filho – algo q jamais escaparia a alguém realmente embrenhado em Nietzsche e Rousseau.

É óbvio tbm q várias dessas citações têm sua razão de ser em cada livro. Por exemplo, Fermat tem um papel central em As sementes. Mas certos nomes parecem estar ali só por escapismo. Por exemplo, em As sementes, um personagem "parece o Danny Glover" (pg 52); em Mastroianni, alguém é descrita como "uma lulu brooks" (pg 183); numa cena de Corpo estranho, a aparência de alguém lembra "uma aldeã de El Greco" (pg 254). ¿Não é um fenômeno peculiar q ninguém se pareça com um brasileiro conhecido?

Num concorrente desta Copa, Galiléia (placar geral preliminar 25 x 0), três personagens param num boteco de beira-estrada, sentam em cadeiras "fornecidas por uma cervejaria" e um deles "deseja apenas uma coca-cola" (pg33). O autor se sente à vontade pra mencionar o nome duma multinacional mas não o da cervejaria (q deve ser brasileira). ¿Não é intrigante, no mínimo?

Pois então, ¿de onde vem isso? Muitas citações são francamente gratuitas. Mas apesar do título deste texto, na verdade não acho q seja realmente pra impressionar q esses autores mencionem nomes estrangeiros e ignorem quase completamente os produtores e os produtos culturais do Brasil. Mas ¿será? Ou ¿será um pudor, uma cautela – tipo tal como em festa só se fala de quem tá ausente? ¿Será um cacoete? ¿Será a natureza adulatória do brasileiro se manifestando? ¿Será um desejo de se internacionalizar – demonstrando cosmopolitismo e expurgando referências incompreensíveis ao resto do mundo pra facilitar a tradução? ¿Será apenas pq se trata de ficção, com uma dose de escapismo até mesmo pro autor?

O escapismo seria o mais irônico. Nomes do 1° mundo enxurram a tv, a internet, as livrarias, as escolas: são inescapáveis. Seria de se esperar q a maior parte da literatura deste país fosse imune, q fosse um reduto pra onde escapar da xenorragia.

Seja como for, a xeno-referência não deixa de ser o modo como esses autores brasileiros se relacionam com... o Brasil. E se eu mesmo leio primordialmente literatura européia, uso interrogações de cabeça pra baixo e escrevo rotineiramente sobre o Brasil como um fim-de-mundo, ¿por que me espanta q outros expressem essa insatisfação cada um a sua maneira? Mmm, sei não. Pra mim, uma coisa é achar defeito em meu jardim; outra é virar pra minha mulher e elogiar o do vizinho esperando q ele me escute. Ainda outra é observar como o vizinho cuida do próprio jardim, fala do q só nele vê, e nem dá bola pro meu. Se há uma coisa a aprender com Gaiman, Proust, Heidegger, Wilde, Ibsen e a patota toda, é q esses vizinhos jamais falam do Brasil. E talvez teja aí o q se deve emular do 1° mundo: não fale do vizinho; faça como ele.

Wednesday, July 21, 2010

sonetos do sheik espir

Estou estupefacto
que os imortais em pacto
no fórum tumefacto
aceitem como intacto
o bardo jure et facto
e venha um bibliotacto
brindar a tal abacto
um prêmio ex post facto.

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Leia o compacto.

Glossário:
estupefacto: perplexo
tumefacto: inchado
jure et facto: de direito e de fato
bibliotacto: profissional q classifica livros
abacto: aborto induzido
ex post facto: retroativamente

Saturday, March 06, 2010

pra dizer q não se fala das flores

forma forma forma
só se fala disso
orna sobre a norma
vaso quebradiço

Thursday, March 04, 2010

landmarks

Não são as pedras o q torna o caminho do conhecimento difícil; é o vento contra dos imbecis.

Tuesday, March 02, 2010

baseado num grafitti q vi nos anos 70

Eterna Mente
é ter na mente
éter – na mente
e ternamente –
eternamente.

(tradução: credulidade não tem cura)

Sunday, November 29, 2009

o progresso tecnológico e a evolução da culpa como motor da moralidade

tropecei num pé-de-alface
grande, verde e nutritivo
se das folhas não gostasse
proibiria seu cultivo

tropecei numa armadilha
fria, dura e insensível
toda vez que alguém me humilha
solto o verbo e baixo o nível

tropecei num telefone
útil, novo e dando linha
varo a noite agora insone
remoendo o som que tinha

Saturday, September 26, 2009

como ficar milionário

Tenha sorte.

Thursday, July 16, 2009

estágios

Acho q vc tem todo direito de se ofender por eu ter te chamado de idiota. Mas tbm acho q tenho todo direito de achar q quem se ofende com uma idiotice dessas é um imbecil. E tbm acho q vc tem todo direito de se ofender por eu ter chamado de imbecil quem se ofende com aquela idiotice. Mas tbm acho q tenho todo direito de achar q quem se ofende com uma imbecilidade dessas é um cretino. E tbm acho q vc tem todo direito de se ofender por eu ter chamado de cretino quem se ofende com aquela imbecilidade. Mas tbm acho q tenho todo direito de achar q quem se ofende com uma cretinice dessas é um débil mental.

Na verdade, tá melhorando.

Sunday, July 12, 2009

livraria

muita gente compra livros
pra depois ler no banheiro
só q qdo tão comprando
fazem pose de altaneiro

têm orgulho de ser cultos
falam té língua estrangeira
mas só sentam prà leitura
qdo vem a caganeira

Friday, July 10, 2009

o pior

O pior não é isso. O pior é aquilo.

Friday, July 03, 2009

por que sou quieto

Cachorro de rua não late.

Saturday, February 21, 2009

the theory of art

Art is not about freedom; it's about taking liberties.

(Agora quero ver alguém traduzir isso pro portuga.)

Tuesday, October 28, 2008

provérbios 71:397

Quem preza a miudeza embeleza a grandeza.