Sunday, December 24, 2006

desejos e devaneios

Quando começa um ano, parece q todo o mundo quer se sentir jovem entrando num futuro de oportunidades e possibilidades. Fazem listas. Hoje recebi uma por email. Mas lista de desejos é coisa de adolescente, não é? Essa q recebi, tal como muita lista de púbere, começa com "fazer novos amigos":
 
Dez desejos da molecada sonhadora pra 2007:
1. fazer novos amigos
2. reencontrar os antigos
3. ver aqueles filmes q você sempre quis
4. nadar sem roupa
5. experimentar um prato novo
6. trocar os móveis de lugar
7. acabar os livros q começou
8. viajar de balão
9. ter o café da manhã servido na cama
10. fazer algo pra tornar o mundo melhor
 
Ai meus tonhos, disse eu, ¿não tem lista pra pessoas de meia-idade como eu: não tão jovens q ainda queiram fazer tudo, nem tão velhas q já tenham desistido? Foi aí q resolvi atualizar a lista q me mandaram. Eis o resultado:
 
Dez devaneios de adultos realistas pra 2007:
1. desfazer velhos inimigos
2. nunca encontrar os possíveis novos
3. não ver filmes q você se arrependerá de ter visto
4. andar sem roupa
5. repetir um prato delicioso como se fosse da primeira vez
6. trocar a casa de lugar
7. acabar de escrever os livros q começou
8. viajar de dirigível
9. ter o café da manhã servido na cama num hotel cinco entrelas, várias vezes
10. desfazer algo pra tornar o mundo melhor

Wednesday, December 13, 2006

se não sou eu pra dizê-lo...

O espaço aéreo é como um distúrbio vegetal em várias etapas. Não há como negá-lo. Se, por exemplo, houvesse sequer um pingo de madeira q não tivesse uma origem dúbia, todo apego ao desânimo perderia pontos no quesito "textura". Isso porque um pequeno surto vegetativo, por menor q seja, poderia causar aquilo q os franceses chamariam de "l'ennui du bois", se bebessem mais. Não quero dizer com isso q aceito qualquer desculpa como parte duma tramóia: há mais coisas em jogo; e talvez eu devesse explicar melhor.
 
Nenhum sentimento duvida de si; e é nisso q se enganam todos os q até hoje propuseram outras rebarbas. Nem mesmo um baita tempero —não importa quão baita— substituiria uma letra de câmbio bem viciada e deliberadamente emotiva. Pra isso, há basicamente dois motivos: primeiro, q não há como negá-lo; segundo, q se de repente brotasse um girassol no meio dum escritório, outras cabeças rolariam e ninguém se daria por satisfeito —mesmo q pra isso uma nuvem fosse a desculpa. Mas talvez eu devesse explicar melhor.
 
Darei um exemplo mais concreto. Suponha q houvesse um terceiro motivo; digamos q a indústria fonográfica, empanturrada de ralos e pias, tivesse q prestar serviços aleatórios a uma colméia numa floresta em Belize. ¿Você não concordaria q isso teria um efeito? ¿Não concordaria q uma rebarba com textura desanimada nunca teria sequer um pingo de madeira pra deliberar o q quer q tivesse basicamente dois motivos pra desculpar uma tramóia numa letra de câmbio viciada por sentimentos de espaço aéreo em várias etapas? Pois é. É o q digo eu. O pergaminho do espaço-tempo é o q há; e você leu isso primeiro aqui. Ou talvez eu devesse explicar melhor.

Thursday, November 30, 2006

o português tal como seria, se inglês

criança = criância = processo/ofício de criar [breed]
entrar = passar a uma posição 'entre' [between] (quatro paredes, &c)
gramado = terreno onde predomina a grama [grass]
enfrentar = ir em frente, pôr-se em frente [in front]
desprezo = negação de valor, de preço [price]
arquibancada = conjunto de assentos [bench]

The breedance betweened inthe grassed and infronted the dispricing ofthe archibenched.

Sunday, October 15, 2006

os caga-nuncas

Não me dou bem com idealistas românticos sonhadores prolixos rebuscantes nostálgicos mariquinhas devaneantes com-o-pé-atrás.

"Com-o-pé-atrás" é uma redundância. Todo idealista romântico sonhador prolixo rebuscante nostálgico mariquinha devaneante tem o pé atrás.

Chamêmo-los de caga-nuncas.

Não me dou bem com caga-nuncas porque são no fundo pessoas más, hostis e empafes disfarçadinhas de gente limpinha; pessoas q entendem todo comentário realista breve irreverente brincalhão como um ataque, uma alfinetada, um ardil. Gente q vê colher e enxerga faca, q toca em madeira e sente pau, q ouve franqueza e entende vaidade. São pessoas rancorosas por não encontrar o mundo como em seus sonhos floridos, em seus poemas de rendinhas, em suas fotos branco-e-preto de ruas molhadas.

Basta rir dum caga-nunca por um quezinho de braguilha aberta, de sutiã torto, de incoerência, e ele de almofadinha vira porco-espinho. Sente-se atacado. Sempre na defensiva, é o frágil tadinho q não suporta idéias díspares. O pé-atrás é menos um amortecedor da defesa q uma alavanca do ataque.

E sim, é dela mesmo também q estou falando.

Tuesday, October 10, 2006

coisas que nhééééé

gente q escreve português q parece traduzês
gente q escreve traduzês
gente q despreza quem não escreve traduzês
gente q acha inteligente o q escreve porque está em traduzês

gente q emporcalha o mundo com coisas asseadinhas
gente-isopor: muito volume, pouco peso e afetação de assepsia
gente-azulejo: só brilha quando está limpinho; na verdade nem brilha, só reflete

é, é dela mesmo q estou falando

Sunday, October 08, 2006

ms austen's other interests

It is another truth universally acknowledged that Ms Austen co-founded the Literary Lesbians' League, a highly prestigious 19th century institution created to try and trump the insults and injuries in the practice and progress of pride and prejudice through a clever and classy use and utilization of sense and sensibility and wit and wisdom and rhyme and reason as part and parcel of a plot and plan for a safe and sound and spick and span society. However, the LLL was successfully sued by Tweedledum and Tweedledee for plagiarism and pluralism, and was forced to split into two distinct and different bodies: the Literary League and the Lesbian League. Ms Austen got so angry that she sat down and wrote Emma.

Wednesday, October 04, 2006

papel idiota

idiota
idiota
sou o menino idiota

meu papel é passar papelão
e passar papelão idiota
idiota também é imbecio

idiota
papel idiota

Sunday, October 01, 2006

toothpick etiquette

in some exalted circles
'tis considered very chic
to nib at plates of pickles
with your very own toothpick.

but should you stay for supper,
'tis considered very rude
to take your picker-upper
and gorge yourself with food.

Wednesday, September 27, 2006

não

Ninguém jamais nem nunca quis negar-me um não.

Monday, September 04, 2006

aporréia (2)

o bafo de quem não arrota
espreita no ar como um pó
que o peito automático enxota
a cada empurrão do gogó

feliz é a pessoa que arrota
explicitamente bocó
e um peido aromático brota
de seu jovial fiofó

Saturday, September 02, 2006

o beijo

Um beijo é assim tipo uma ação q tipo assim sai de dentro de você mas tipo assim também tá tirando alguma coisa da pessoa beijada; tipo assim, quando você beija, o beijo é uma chupadinha do ar q tá perto da superfície da pele da outra pessoa, porque é impossível beijar sem tipo assim sugar um pouco daquele arzinho q tá por ali, sem fazer um barulhinho tipo assim meio sibilante, tipo assim um fff ou um xxx curtinho. E, tipo assim, tem gente q fala de "beijo ardente", mas a verdade é q o beijo, tipo assim quando dá aquela chupadinha do arzinho q tá por ali, o beijo dá tipo assim um friozinho na pele da pessoa beijada; não é nada "ardente". É mais como se fosse tipo assim um aspiradorzinho q suga o calorzinho q fica tipo assim rente à pele. O beijo refresca. O beijo é refrescante.

Beijo refrescante.

¿Será q esqueci alguma coisa?

Thursday, August 31, 2006

filocedário

Ontem, por um axioma implacável da vida, de cunho behaviorista, sofri uma catarse lombar doutrinariamente empírica q me deixou fenomenologicamente incapaz de aplicar gnomas a qualquer holismo imanente, nem de frente nem de perfil. Apesar de tão jônico, o logos mostra q tem q ser muito maiêutico pra cair num nihilismo tão pouco ontogênico. Mas explico: o sinistro degringolou antes q eu pudesse pragmaticamente me apoiar em alguma qüididade, seja racional ou mesmo sofista. E, é claro, apareceu do nada uma poça d'água totalmente tautológica. Nessas horas ou você já é utilitarista ou aprende a ser na marra, pois não há voluntarismo q agüente. De modo q só me restou xingar minha própria zetética.

Tuesday, August 15, 2006

peido 01

A melhor coisa de trabalhar em casa é q você pode peidar quando quiser.

Saturday, April 15, 2006

indecente

-Indecente.
-...
-Indecente.
-¿O quê?
-Indecente.
-¿O q é indecente?
-Indecente.
-¿O q eu disse? ¿O q eu falei?
-Indecente.
-¿Quer parar de repetir isso? ¿O q é indecente?
-Indecente.
-¿Você quer dizer q o q eu fiz foi indecente? ¿Por que é q não diz logo?
-Indecente.
-E você teria feito diferente? Foi a única coisa q eu poderia ter feito. E a única coisa q fazia algum sentido naquela situação. ¿Ou você acha q teria dado pra fazer outra coisa?
-Indecente.
-¿Quer parar? Essa é uma acusação totalmente descabida e você não tem o menor motivo pra me reprovar desse jeito, já q eu livrei tua cara também.
-Indecente.
-Porque senão a gente tava lá até agora. E ¿tá pensando q foi fácil? Não foi fácil, não. Tanto, q você nem tchungas. Eu é q tive q ter a cara de chegar lá e dizer tudo aquilo.
-Indecente.
-¿Ah, quer saber de uma coisa? Tou fora. Ou você me dá algum crédito, ou vai ficar aqui mofando...
-Indecente.
-...porque não vai ter ninguém mais pra te tirar daqui depois q eu for embora.
-Indecente.
-Porra! ¿Quer parar com isso?
-Indecente.
-Olha, cabou, tá? Fica aí você, q eu vou cuidar de minha vida. Tou fora.
-Indecente.
-...
-Indecente.
-..
-Indecente.
-.
-Indecente.
-
-Indecente.

Friday, March 31, 2006

in memoriam

Ontem de manhã... Acho q era de manhã. Não. Era de madrugada... É, acho q foi ontem de madrugada. Não. Era antes de ontem à tarde... Foi bem na hora em q eu estava ali no... no... Não. Eu estava , não ali. E agora me lembrei. Não foi antes de ontem à tarde. Foi ontem de manhã mesmo. Acho. E eu estava ali mesmo, não lá.

Pois bem, ontem de manhã eu estava ali e exatamente naquela hora e naquele lugar me esqueci do q estava fazendo.

É verdade!

Incrível, né?

Wednesday, March 22, 2006

indigno

Sempre q posso, dou uma chegadinha ali na praça e me sento no banco e reparo nas pessoas passando com toda aquela dignidade. É nauseante ver toda aquela dignidade passando. Quero dizer q fico me sentindo tão humilhado e pequeno q tenho q erguer e entortar a cabeça pra ver toda aquela dignidade passar lá no alto perto das nuvens dum branco imaculado sobre um fundo azul genuinamente celestial.

Por segurança, me amparo no encosto do banco porque senão minha náusea logo me levaria ao chão onde mereço jazer. Às vezes algumas das pessoas q passam com toda aquela dignidade me sapecam um sopapo visual pra ver se aprendo uma lição, mas isso nunca resolve. Entre um digno e outro, fico dissimulando q estou me entretendo com o conteúdo duma de minhas orelhas.

Após uma ou duas dúzias de cidadãos passando com toda aquela dignidade, vou me acinzentando e, quando há uma pausa no fluxo quase contínuo de dignidades, me levanto. Ao voltar à alcova em q vivo, nem tento imitar o estilo épico de caminhar com toda aquela dignidade, já q nunca há na praça, nem poderia haver, outro nulo como eu reparando nas pessoas e nauseando-se e humilhando-se e acinzentando-se ao me ver passar com toda minha irrelevância.

Sunday, February 26, 2006

rúcula

Sempre fui uma pessoa ridícula. O Fernandinho Pessoa podia se esconder atrás do Alvarinho de Campos. Eu não. Sempre fui ridículo em pessoa. Ridículo; ridículo mesmo, daquele nível de ridiculez q todo mundo comenta.

Eu digo coisas ridículas.
Eu falo coisas ridículas.
Eu faço coisas ridículas.
Eu caço coisas ridículas.
Eu cago coisas ridículas.
Eu pago coisas ridículas.
Eu paro coisas ridículas.

Dadada.

Sunday, February 19, 2006

também acho

E olha q nem opinião formada sobre o assunto eu tenho. Até entendi o q quiseram dizer. Entendi todas as palavras, todos os argumentos. Entendi até as entrelinhas, as reticências e aspas. E posso garantir, com toda a firmeza q me é peculiar, q concordo, também acho, acompadro-me, sou dessa exata opinião, penso igual, tenho idêntica visão da coisa e partilho dos mesmos sentimentos.