Monday, June 16, 2008

prédios de barro

Morar em prédio tem suas vantagens. Vc tem a opção de subir e descer de escada ou de elevador.

Se de escada, pode ao mesmo tempo se exercitar e filosofar sobre a decadência do mundo. Se de elevador, sempre aparece a chance de conhecer pessoas q, sob ALGUM ponto de vista, devem ser mìnimamente interessantes. Digo "devem ser" por uma questão filosófica. Qdo era adolescente, no meio de todas aquelas distorções da percepção q atormentam os jovens, reconheci q pràticamente QUALQUER pessoa poderia vir a se tornar importante e talvez interessante pra mim, assim como qualquer assunto. E é nesse espírito de mente aberta q agora despejo estas palavras sobre o leitor.

Como disse, morar em prédio tem suas vantagens. Mas acho q vc tem q ser um pouco desumano pra PREFERIR morar em prédio. Uma casa com dois quartos, sala, cozinha e banheiro, tudo ao rés do chão, é apenas um espaço circunscrito q alguém pode chamar de lar. Mas empilhe quinze ou vinte cópias dessa mesma planta formando um prédio, e um problema insolúvel começa a se amontoar.

Tudo q sobe tem q descer. A dona-de-casa, digo, a dona-de-apartamento vai às compras na feira ou no mercado, traz um carrinho cheio de carnes, repolhos, mamões, pimentas, &c, leva aquilo tudo de elevador até seu apartamento, passa a semana toda preparando e comendo aquilo tudo... e daí? ¿Como é q aquilo q subiu no elevador vai descer de novo?

Moro no nono andar dum edifico com quinze. Um apartamento simples, nenhum rebusque. Da sala aos quartos há um pequeno corredor, e nele à direita o banheiro. Suponho q os arquitetos –pessoas de bom senso– disponham o banheiro a meio caminho entre a sala e os quartos pra q ele sirva também às visitas. Pois as visitas também sobem e também têm q descer, e trazem pra cima coisas q precisam voltar pra baixo de um modo ou de outro.

Pois estava eu outro dia na sala com uma visita, qdo esta honrou a previsão do arquiteto e precisou, digamos assim, virar à direita no corredor. Não é de meu feitio imaginar o q se passa entre azulejos. Acho q todos nós cagamos. Giselle Bündchen caga. Jude Law caga. Todos os presidentes do Brasil até hoje cagaram. Minha mãe cagava. O papa caga. Você caga. A rainha da Inglaterra caga e peida. Nem sempre o cagar chega aos ouvidos alheios. Mas pelo menos dessa vez, com essa visita, chegou.

Até aí nada demais. A volta da visita à sala continuaria o prazer de sua presença exatamente como dantes. Mas como eu estava, por assim dizer, de ouvidos abertos e ali bem do outro lado da parede, ouvi um outro som surgir, um som mais suave, mais distante, um som q penetrou minha orelha, estremeceu meus tímpanos e instalou em meu ser uma revelação ainda mais profunda sobre o dia-a-dia do arquiteto.

Visualize o problema. Toda a instalação hidráulica de meu banheiro está na parede q este compartilha com a sala. Já a instalação sanitária sai pelo piso e, a caminho do esgoto, desce por um pilar até o chão. Pois bem. Meu prédio tem quatro apartamentos por andar, perfazendo sessenta apartamentos no prédio. Presumindo q todos esses apartamentos tenham instalações sanitárias similares, gente morando, visitas q cagam &c, ¿onde é q moramos os condôminos, se não numa estrutura contìnuamente percorrida por fezes, urina, vomições e catamênios? ¿Quê é um edifício residencial se não um grupo de pessoas rodeadas por tubulações onde regularmente descem cocô, xixi, vômitos e menstruações? entremeadas por fios de bosta, mijo, comida podre e sangue?

Me compadeço dos moradores do primeiro andar, essa gente infeliz ensanduichada entre as neuroses da rua e os dejetos q não cessam de escorrer a sua volta. Jamais têm um minuto de paz, atormentados por sons indefinidos vindos de dentro da parede, seu sono abalado por rumores excrescentes no meio da noite. Sempre vejo moradores do primeiro andar evacuando o edifício de manhã com o alívio estampado no rosto, ou à noite arrastando os pés de volta a seus lares pejados. Quando encontro a triste senhora do 14 no saguão do prédio, e vejo seu rosto destroçado por uma constante amargura privada, um ânimo submerso numa fossa permanente, faço questão de lhe abrir a porta, ajudá-la com as compras, distraí-la por um momento. Ela me lança um olhar marrom, um sorriso caído, com sua maquiagem descuidadamente borrada. Ela sabe q no mesmo edifício há moradores menos infelizes do q ela, e eu jamais a ofenderia convidando-a pra uma visita ao nono andar.

O caso do casalzinho do 11 é talvez pior. Instalados ali após uma lua de mel numa montanha distante dos dejetos humanos, há dois anos amargam a lenta bostificação de seu romance –o sexo selvagem nas manhãs de domingo pouco a pouco se diluindo na diarréia matinal dos quatorze andares acima de seu leito. Antes, arfavam sorrindo cansados; hoje, estão esgotados já ao começar, e ao fim apenas se entreolham enfezados. Eles mesmos já se aliviaram das inibições e peidam-se mùtuamente sem constrições. Já aprenderam q o romantismo não sobrevive ao condomínio.

E este é apenas UM edifício. A cidade come e caga num cliclo imparável, e as milhares de torres nela são como coleções de tubos digestivos de pessoas magras ou gordas, ricas ou pobres, ingerindo alimentos e excretando fezes, engolindo comida e produzindo cocô, recebendo delícias e expelindo merda. Na cidade q esparrama sua urbanorréia, cada prédio ridìculamente se esforça pra manter sua aparência de assepsia cartesiana, enquando tortura os esquizóides moradores diàriamente com os ruídos ocos e fétidos nos intestinos em seu esqueleto.