Tuesday, July 15, 2008

pessoas q respeito - I

Uns quinze anos atrás, o hotel Crowne Plaza da R Frei Caneca promovia em seu auditório umas noitadas de música q varavam a noite. Grandes músicos subiam ao palco pra dar uma canja, e às altas horas da madrugada, quando tudo terminava, o restaurante do hotel servia canja. Havia noites voluptuosas com grandes virtuoses e noites decepcionantes com os grandes desafinantes.

Por aquela época, eu andava com meu amigo Wanderlei Cunha, um carioca do Estácio, parecido com o Moe dos Três Patetas, trompetista talentosíssimo e ótima pessoa; se tem um defeito, é q sempre está com a cabeça três compassos adiante do momento.

Ou assim me parecia.

Uma tarde o encontrei por acaso na Oscar Freire, perto de onde ele morava. Me disse q aquela noite ia dar uma canja no Crowne Plaza. Perguntei com quem.

–Uma banda de jazz (ele pronuncia 'jaz', não 'djéz') duns compadres aí. Dois temas. Tão precisando dum gás.

O Wanderlei tinha umas teorias de performance q eu raramente entendia. Eu achava q eram coisa de trompetista. O trompete é um dos instrumentos mais difíceis e paradoxalmente mais delicados. Segundo o q eu entendia, quando um trompetista toca à frente duma banda, ela tem q soar como um carro perfeitamente regulado e limpo, com os pára-choques cromados e polidos zunindo num estrada impecável: qqer peça fora de lugar e o trompetista derrapa e dá de cara num muro. Se a banda desafina ou faz algo muito inesperado, o trompetista tem uma dor física nos lábios e dentes.

Era difícil tocar samba com ele. Samba de paulista nunca deleitava seus ouvidos cariocas. "Não tá explicado," ele reclamava. Samba tinha q soar "explicado", e ele explicava e explicava. Não dava bola fora, nunca; mas às vezes músico só quer tocar, né?

–¿Como assim, precisando dum gás?
–Os caras tão com uma banda afiada, mas tocam redondinho demais, sem cor. Tá faltando um tchan, manja? Eles solam e tal, e a platéia aplaude bonitinho no fim da música. Alguém precisa levantar o público, fazer neguinho erguer os braços no meio do solo, aplaudir e gritar êêêêê.
–Mas se o som deles é pra ser redondinho e sem cor, ué... (Eu achava q tem lugar pra todo mundo. Ainda acho. Um pouco.)
–Não tem essa. O público vai em show pra ouvir emoção; não vai pra admirar. Dá um rolê lá, cara, vc vai ver.

Fui.

Lembro q o nome do grupo era um trocadilho em inglês. Doesn't bode well. (Isso não é o nome da banda; é o q pensei eu quando vi o nome.) Uma banda competente, timbres bem encaixados, um show redondinho. O público aplaudia comedido.

Perto do fim, subiu ao palco o Wanderlei.

Tocaram um tema previamente ensaiado; aquela coisa cool, quase dava pra enxergar tudo como foto em branco & preto, ternos listradinhos e alguém segurando um cigarro com a fumaça pairando.

Entregaram pro Wanderlei solar.

Começou de mansinho, tateando o lugar e o momento. A banda segurava a onda. Ele estava agora ao volante dum carro com um pára-choque cromadinho num asfalto lisinho. As frases começaram a brotar, e foi só aí, depois de uma hora de show, q o público entendeu pra quê serve uma banda redondinha. O improviso acelerou, foi complicando e explicando. Cada nota vibrava; cada idéia começava, tinha seu momento de glória e se encaixava na seguinte. O clímax veio como uma explosão inevitável, com ritmos e riffs contagiantes e... explicados.

E foi aí q aconteceu. Enquanto o clímax ia chegando a um lugar totalmente ali, dedicado àquela platéia, àquele momento, àquela canja, e entregue a nós como um presente, o público inteiro não resistiu: ergueu os braços, aplaudiu, gritou longos êêês e ôôôs de arroubo e curtos ús de prazer, assobiou, urrou e deu risada.

A parte da risada era eu. Só eu sabia o q realmente estava acontecendo. Ele havia dito o q ia fazer e fez. Em menos de cinco minutos de palco, tinha feito uma platéia inteira entender uma coisa inexplicável e abrir um sorriso no rosto. Eu ria também porque ali eu soube q às vezes não era o Wanderlei q estava três compassos adiante do momento; às vezes era eu q estava dois compassos atrás.

Esperei o Wanderlei na saída.

–Cara, eu queria comprar um chapéu só pra tirar ele pra vc.

Ele riu. A música é só um momento. Ele já estava pensando no seguinte.

Wednesday, July 02, 2008

volts

A eletrizante verdade eletrocuta muita gente.