Tuesday, August 24, 2010

neimedrópin

[Abaixo, um texto q escrevi prà Copa de Literatura Brasileira 2009. Com a suspensão da CLB este ano, o texto foi copiado alhures, mas infelizmente sem a listagem dos nomes no meio. Esta é a versão completa, com a listagem.]

Algumas semanas atrás fiquei doentinho de cama. Sem saco pra muita coisa, resolvi sucumbir a um de meus passatempos prediletos: analisar listas. Nas primeiras duas Copas, tinha notado q os oito livros a mim designados tinham algo em comum: todos eles citavam nomes de pessoas reais e famosas. Não só isso, mas q a grande maioria dessas pessoas eram estrangeiras e do 1° mundo. Fiquei meio intrigado com isso – pra não dizer traumatizado com o volume de name-dropping no livro do Tezza –, mas deixei passar. Foi só nesses dias de cama q o pensamento voltou.

Pra temperar o q vou dizer aqui, devo adiantar q, antes de ser convidado prà Copa, eu não lia literatura brasileira havia uns 25 anos. Em minha biblioteca havia um total de 3 livros de autores brasileiros: Vaca de nariz sutil, O coronel e o lobisomem, e uma antologia de Augusto dos Anjos. Já havia lido muito, mas fui perdendo os livros com o tempo. De ficção, leio muita literatura européia de mais de 50 anos; descontando alguns hispano-americanos, não leio muita coisa mais recente. De modo q não tava acostumado ao q vi nesses oito livros, embora citar nomes reais em livros de ficção não seja coisa nova ou desprestigiada na lit. bras. – vide Machado. Pelo q vejo da literatura européia q leio, a citação dum nome real raramente carece dum motivo temático: o nome, aquele nome em particular, tem um motivo pra estar ali, um motivo tramático q o autor explicita de alguma forma. Sabendo q um nome real denota muitas complexidades – estas às vezes antitéticas –, o autor não espera q o leitor tenha um conhecimento prévio do aspecto específico do nome q o fez inclui-lo no texto, em detrimento de qqer um dentre as dezenas de outros nomes possíveis. A menos q escreva um texto impressionista e/ou verborrágico, o autor consciente inclui um nome numa trama pq NESSA trama ele não tem outra escolha além de inclui-lo.

Por isso me assustei ao ler tantos nomes reais naqueles oito livros. Ok: desses oito, vou tirar os dois romances baseados em fatos históricos, Música perdida e Um defeito de cor. Abaixo, segue uma lista dos nomes reais citados nos outros seis, na ordem e na forma em q aparecem. E = estrangeiro, PE = produção estrangeira, B = brasileiro, PB = produção brasileira; nomes entre parênteses não são citados textualmente; eliminei os nomes com mais de 500 anos.

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As sementes de Flowerville
E: Neil Gaiman, Fermat, Vivaldi, Danny Glover, Florbela Espanca, Sylvia Plath, (Yutaka) Taniyama, (Goro) Shimura, Anna Akhmatova, The Strokes, Franz Ferdinand, Karl Marx, Jesus & Mary Chain, Bob Dylan, Georgia O'Keeffe, Paloma Picasso
PE: Sandman, Waltons, John Boy, Mary Ellen, Tarzan, Twilight Zone, Speed Racer, National Kid, Ultra Man, Jaspion, Super-Homem
PB: o Mug

Corpo estranho
E: Einstein, Rimbaud, (Etienne) Carjat, (Alfred) Stieglitz, Whitman, Margaret Mee, Linnaeus, E.Twining, P.S.Bury, S.A.Drake, Michelangelo, Gaudí, Dickens, Lewis Carrol, Van Gogh, (Erwin) Panofski, Cesare Ripa, Harrison Ford, Nadar (G-F.Tournachon), Kurt Cobain, Lucian Freud, Oscar Wilde, Alfred Douglas, Basquiat, Gertrude Stein, Marcel Proust, Simone de Beauvoir, Quino, Foucault, El Greco
PE: Vogue, National Geographic, Greenpeace, Turandot, As Ondas (de V.Woolf), Pip (de Dickens), Ahab (em Moby Dick), Miranda (de J.Mayhew), (Duquesa de) Guermantes, Mafalda, Tintin, Asterix
B: (C.Lispector, russa), Cruz e Lima (?), Alex Vallauri (etíope)

Lugares que não conheço, pessoas que nunca vi
E: Jayne Mansfield, Rita Hayworth, Marlon Brando, Groucho Marx, Velvet (Underground), Fats Domino, Tommy Dorsey
PE: Discovery Channel, On the Sunny Side of the Street
B: Pixinguinha, D. João VI (português), Lula
PB: Jornal Nacional, Bom Dia Brasil

Toda Terça
E: Alejandra Pizarnik, (Mario) Benedetti, Marlene Dietrich, Proust, Unica Zürn, (Lacan), madre Teresa de Calcutá, Deleuze, Heidegger, Frida Kahlo, Che Guevara, Compay Segundo, Pola Negri, Miró, Billie Holiday, Nina Simone, Juliette Gréco, Charles Aznavour
PE: (Moebius), Ulrica, Javier, (El lado oscuro de la luna), National Geographic, (Genealogies d'un crime), Cinderela, Branca de Neve, Nautilus
B: Corisco, Portinari

O dia Mastroianni
E: Mastroianni, Elvis Presley, Claudia Cardinale, Oscar Wilde, Jackie O., Buñuel, Éluard, Anita Ekberg, Sophia Loren, Beethoven, Luís XV, Schopenhauer, Miles Davis, Johnny de le Fleuve (Johnny Rivers? Johnny Rivera?), Ben Gazzara, Modiglianni, (Louise) Lulu Brooks, Tony Bennett
PE: Pernalonga, Herald Tribune, Mxyzptlk, Puttin' on the Ritz, Branca de Neve
B: Jorge Ben, Adele Fátima

O filho eterno
E: Thomas Bernhard, Søren Kierkegaard, Kipling, Rousseau, Balzac, Dostoiévski, James Joyce, Thomas Mann, Nietzsche, Da Vinci, John Langdon Haydon Down, príncipe Charles, Kennedy, Jerôme Lejeune, T.S.Eliot, Heidegger, Mendel, Jean Piaget, Horace McCoy, Grimm, Lamarck, Darwin, Aldous Huxley, Camus, (Karl) Marx, Freud, Álvaro Cunhal, Chaplin, Disney, Hemingway, Franco, Tolkien, Goethe, Günther Grass, John Steinbeck, Heinrich Böll, Scott Fitzgerald, Sartre, Dickens, Cortázar, Borges, Andy Warhol, Henrik Ibsen, Shakespeare, Münch, William Faulkner, Einstein, Joseph Conrad, Karl Jaspers, Vargas Llosa, García Lorca, Herman Hesse, Reich, Groucho Marx, Pasolini, Costa-Gravas, Kafka, Stanislavski, Jerry Lewis, Peter Sellers, Jung, Brecht, Manet, Van Gogh, Gauguin, Ensor, Yoko Ono, Miriam Makeba
PE: Admirável mundo novo, Dom Quixote, Comédia Humana, Ulisses (de Joyce), Leopold Bloom, Pangloss, Quatro Quartetos (de Eliot), O nascimento da inteligência na criança, Dr Strangelove, O homem revoltado, A origem da tragédia, Raskolnikoff, A montanha mágica, O inimigo do povo, Ricardo III, Paris é uma festa, Alfa Mais, Cem anos de solidão, A cidade e os cães, 2001 Uma odisséia no espaço, Decameron, Z, Sherlock (Holmes), Summerhill, Pokémon, Batman, Super Homem, Peter Pan, Bolinha, Comédia dos erros, Um convidado bem trapalhão, capitão Haddock, As confissões, A engrenagem, Tarzan, Dexter, Os sem-floresta, Astérix e Obélix, Meninas Superpoderosas
B: Carlos Drummond de Andrade, Vinicius de Moraes, Geraldo Vandré, Newton Freire-Maia, Monteiro Lobato, Nelson Rodrigues, Portinari, Jorge Amado, Luiz Delfino, Lamarca, Graciliano, Paulo Maluf, Marighella
PB: Revista de Letras, Jeca Tatu, Brás Cubas, O pasquim, O Estado de S. Paulo, Manual da guerrilha urbana, Emília, Jornal Nacional

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O q salta à vista imediatamente é a proporção de nomes estrangeiros (quase todos do 1° mundo) contra nomes brasileiros. Contando apenas os nomes de pessoas reais, eis o placar Estrangeiros x Brasileiros:

As sementes de Flowerville: 10 x 0
Corpo estranho: 30 x 3
Lugares que não conheço...: 7 x 3
Toda terça: 18 x 2
O dia Mastroianni: 18 x 2
O filho eterno: 68 x 13

Incluindo as produções culturais, as proporções ficam ainda mais gritantes:

As sementes de Flowerville: 26 x 1
Corpo estranho: 42 x 3
Lugares que não conheço...: 9 x 5
Toda terça: 27 x 2
O dia Mastroianni: 23 x 2
O filho eterno: 107 x 21

No caso de muitas citações, a preferência por nomes estrangeiros pode não significar nada. Em As sementes, essa preferência pode ser irônica; em Lugares, percebo até um certo sarcasmo nas poucas citações. As em Toda terça são as q tão mais próximas da intenção tramática; a grande maioria não são só nomes jogados ou citados: há uma teia de referências. Em Mastronianni, não são apenas os nomes q foram jogados: o livro todo é jogado – com algum charme petulante, mas jogado. Em Corpo estranho e O filho eterno, os nomes são citados com deferência e sem qqer ironia. Nestes dois, muitos nomes aparecem até mesmo em listas de quatro ou cinco nomes – presentes ali só pra estar ali e mais nada, embora em partes O filho eterno teja consciente da, digamos, subserviência: "Os escritores brasileiros somos pequenos ladrões de sardinha." (pg 104).

Claro q tou consciente das múltiplas variáveis. O autor escreve sobre o mundo q o cerca, e esse mundo contém esses nomes; o Brasil é apenas um país entre muitos e há trocentos mais nomes conhecidos estrangeiros do q brasileiros; ao se tornar citável, todo nome torna-se patrimônio da humanidade; e o autor escreve o q lhe dá na telha, ¿dá licença?

Sim, óbvio. Só q tou falando disso não como crítica literária, mas como descrição dum fenômeno – e acho q tou justificado em chamar isso de 'fenômeno'. Ano passado, fui a uma livraria, onde folheei vários livros brasileiros de ficção recentes e confirmei a impressão: extrapolando a relativamente pequena amostragem, concluo q não é um livro brasileiro aqui e outro ali; são livros às centenas; poucas exceções. É como se grande parte da ficção brasileira não se visse como literatura autônoma, q criasse seus próprios significados; é como se ela se arriscasse a existir apenas enquanto ancorada nos grandes influentes; como se seus autores vissem no Brasil pouco q valesse ser narrado sem o aval, sem o visto assinado dos "grandes" estrangeiros.

O déficit de autonomia na xeno-referência leva às vezes a desajeitos ou a potenciais mal aproveitados. Às vezes, soa como o proverbial japonês tocando samba. Por exemplo, em O filho eterno, o autor fala incontadas vezes de seus ideais adolescentes inspirados por Nietzsche e Rousseau, mas jamais atenta à ironia no paralelo entre, de um lado, o super-homem do primeiro e o bom-selvagem do segundo e, do outro, o pai e seu filho deficiente mental. Nietzsche é o Nietzsche de O nascimento da tragédia e só; Rousseau é o Rousseau da comunhão com a natureza e só. Me deu irque, a repetição exaustiva dos dois nomes sem jamais mencionar, sugerir ou sinalizar o paralelo com o pai e o filho – algo q jamais escaparia a alguém realmente embrenhado em Nietzsche e Rousseau.

É óbvio tbm q várias dessas citações têm sua razão de ser em cada livro. Por exemplo, Fermat tem um papel central em As sementes. Mas certos nomes parecem estar ali só por escapismo. Por exemplo, em As sementes, um personagem "parece o Danny Glover" (pg 52); em Mastroianni, alguém é descrita como "uma lulu brooks" (pg 183); numa cena de Corpo estranho, a aparência de alguém lembra "uma aldeã de El Greco" (pg 254). ¿Não é um fenômeno peculiar q ninguém se pareça com um brasileiro conhecido?

Num concorrente desta Copa, Galiléia (placar geral preliminar 25 x 0), três personagens param num boteco de beira-estrada, sentam em cadeiras "fornecidas por uma cervejaria" e um deles "deseja apenas uma coca-cola" (pg33). O autor se sente à vontade pra mencionar o nome duma multinacional mas não o da cervejaria (q deve ser brasileira). ¿Não é intrigante, no mínimo?

Pois então, ¿de onde vem isso? Muitas citações são francamente gratuitas. Mas apesar do título deste texto, na verdade não acho q seja realmente pra impressionar q esses autores mencionem nomes estrangeiros e ignorem quase completamente os produtores e os produtos culturais do Brasil. Mas ¿será? Ou ¿será um pudor, uma cautela – tipo tal como em festa só se fala de quem tá ausente? ¿Será um cacoete? ¿Será a natureza adulatória do brasileiro se manifestando? ¿Será um desejo de se internacionalizar – demonstrando cosmopolitismo e expurgando referências incompreensíveis ao resto do mundo pra facilitar a tradução? ¿Será apenas pq se trata de ficção, com uma dose de escapismo até mesmo pro autor?

O escapismo seria o mais irônico. Nomes do 1° mundo enxurram a tv, a internet, as livrarias, as escolas: são inescapáveis. Seria de se esperar q a maior parte da literatura deste país fosse imune, q fosse um reduto pra onde escapar da xenorragia.

Seja como for, a xeno-referência não deixa de ser o modo como esses autores brasileiros se relacionam com... o Brasil. E se eu mesmo leio primordialmente literatura européia, uso interrogações de cabeça pra baixo e escrevo rotineiramente sobre o Brasil como um fim-de-mundo, ¿por que me espanta q outros expressem essa insatisfação cada um a sua maneira? Mmm, sei não. Pra mim, uma coisa é achar defeito em meu jardim; outra é virar pra minha mulher e elogiar o do vizinho esperando q ele me escute. Ainda outra é observar como o vizinho cuida do próprio jardim, fala do q só nele vê, e nem dá bola pro meu. Se há uma coisa a aprender com Gaiman, Proust, Heidegger, Wilde, Ibsen e a patota toda, é q esses vizinhos jamais falam do Brasil. E talvez teja aí o q se deve emular do 1° mundo: não fale do vizinho; faça como ele.

Wednesday, July 21, 2010

sonetos do sheik espir

Estou estupefacto
que os imortais em pacto
no fórum tumefacto
aceitem como intacto
o bardo jure et facto
e venha um bibliotacto
brindar a tal abacto
um prêmio ex post facto.

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Leia o compacto.

Glossário:
estupefacto: perplexo
tumefacto: inchado
jure et facto: de direito e de fato
bibliotacto: profissional q classifica livros
abacto: aborto induzido
ex post facto: retroativamente

Saturday, March 06, 2010

pra dizer q não se fala das flores

forma forma forma
só se fala disso
orna sobre a norma
vaso quebradiço

Thursday, March 04, 2010

landmarks

Não são as pedras o q torna o caminho do conhecimento difícil; é o vento contra dos imbecis.

Tuesday, March 02, 2010

baseado num grafitti q vi nos anos 70

Eterna Mente
é ter na mente
éter – na mente
e ternamente –
eternamente.

(tradução: credulidade não tem cura)