domingo, novembro 25, 2007
sábado, novembro 24, 2007
entrefala
> Êi, você aí, que já gosta de falar e ganha a vida falando, fale um pouco aqui pra nós como é que é essa coisa de falar, falar, falar.
• Em primeiro lugar, gostaria de agradecer por esta oportunidade de falar e, o que é ainda melhor, de falar sobre o falar. Falar é uma coisa que eu realmente gosto de fazer – se bem que eu ache mais correto falar que falar é uma coisa de que, ou da qual eu realmente gosto de falar. Mas voltando ao assunto que deixei enquanto falava esse parêntese: realmente, eu gosto de falar. Muita gente não gosta e, o que é ainda pior, não dá a devida importância ao falar nem às pessoas que realmente têm alguma coisa pra falar nem àquilo que é efetivamente falado, porque eu… Eu atribuo isso às políticas que os sucessivos governos têm implantado no Brasil na área da educação, que está num nível realmente lamentável. E talvez justamente por isso, ultimamente tem havido um declínio crescente na arte de falar, de modo que já não se fala hoje em geral com a polidez com que se falava antigamente, quando havia falantes muito bem educados, verdadeiros expoentes dessa arte ancestral, dos quais eu realmente me orgulho de ser não mais que um humilde seguidor.
> Se o falar já teve melhores dias, ¿o que você acha dessa coisa de falar, falar, falar?
• Eu acho extremamente sadio, especialmente prà vida cultural deste país. A cultura se transmite principalmente através da fala, e falar, bem, falar é uma coisa prà qual é preciso ter uma sensibilidade muito especial, mas que ao mesmo tempo todo o mundo entende. É universal, falemos assim, porque todo o mundo, de algum jeito, fala. Então não faz muito sentido que certos falantes se considerem excepcionais e saiam por aí falando que isto e que aquilo e que aquilo outro, porque eu… O problema central é a educação neste país. O bom falante é aquele que fala pra ser ouvido, e o mercado da fala tem decaído cada vez mais no Brasil, justamente porque aparecem (como em toda geração aparece) aparecem falantes que não dominam a fala, ou que inserem estilos de fala sem substância e vão distanciando o povo.
> ¿O que é que leva você, em sua opinião, a essa coisa de falar, falar, falar?
• Veja bem, falar é uma profissão extremamente técnica e pensada, como também pode ser uma atividade totalmente espontânea. Depende do que é que você quer falar, num contexto, claro, historicamente determinado. O falante tem que saber jogar com esses elementos e essas influências. Eu, por exemplo, falo bastante, então é essencial que eu possa me dar ao luxo de usar várias técnicas diferentes, de experimentar falar num estilo único, e até me reservo o direito de calar a boca quando acho que essa vai ser a melhor maneira de falar o que eu quero, que constitui até, falemos assim, uma desconstrução do falar, que é minha opção, por assim falar.
> E você, quando fala, ¿como sente que é essa coisa de falar, falar, falar?
• Falar é muito bom, de forma geral. É agradável falar e ouvir. Mas acho que, quando falo, eu incomodo muita gente. Não é essa minha intenção, claro, mas acontece, quando a gente tem muita coisa pra falar. Até daria pra evitar. Mas é que o falar tem também uma dimensão espiritual muito fundamental, que é preciso levar em conta, então é preciso tomar muito cuidado com o que se fala, pra não ofender. Mas há ouvintes e ouvintes, não é verdade? É por isso que a função social do falar, que é muito importante, precisa de investimento em educação, de estímulo, de laissez faire. Porque sem isso não dá, né?
> E ¿o que você tem a dizer sobre essa coisa de falar, falar, falar?
• Dizer?
> Perdão. Falar.
• Ah. Sim. Hm. Bom. É muito importante, claro. Note, por exemplo, que a imprensa, o rádio, a tevê, e agora a internet trouxeram uma infinidade de maneiras diferentes de falar. E as pessoas estão aí, procurando novos modos de falar, novos modelos de falância. Claro que na internet tem muita gente que fala, fala, fala e nada que preste, porque eu… Mas sempre foi assim, não é verdade? O falar sempre foi o que é, na verdade. Sempre a quantidade é maior do que a qualidade, embora muitas vezes a qualidade seja maior. Sempre tem gente que se destaca, até por omissão, né? Por exemplo, no passado, a Caitlyn Guaruda, o Romeu Boqueirão, a Rita Garella, o Almeida Laringe. Meu trabalho segue nessa linha. Apesar de, claro, eu também preferir a subversão da tradição. O novo sempre surpreende, não é verdade? E é assim que eu vou falando.
> Bem, obrigado pela conversa. Falou e disse!
• Quê?! ¿Está querendo me ofender, rapaz? Não sou da Escola do Dizer, não! Aquela gentalha.
domingo, novembro 18, 2007
Chapèuzinho Verde-Amarelo
eu vou bem sòzinha.
Tou levando uns doces
para a vovòzinha.
Doces estragados
e pão decomposto
pois a vovòzinha
já não sente gosto.
Sou Chapèuzinho
fofa e singela.
Sempre fui xodó
da velha magricela.
Atravesso o rio
pisando no leito
e as piranhas comem
o meu pé direito.
Sigo meu caminho
a encontrar a vovó.
Ando saltitando
em cima de um pé só.
Sou Chapèuzinho
Verde-Amarelo.
Não preciso mais
do par desse chinelo.
Quando chego ao topo
do morro pelado,
vejo a choça dela
lá no outro lado.
E ao descer o morro,
uma bala perdida
leva minha mão
embora desta vida.
Sou Chapèuzinho
fofa e singela.
Já tou vendo a mão
virando mortadela.
Carregando o cesto
na mão que me resta,
um carrão me pega
e me arrebenta a testa.
Zonza, ensangüentada,
sem mão e sem pé,
chego lá esperando
ao menos cafuné.
Sou Chapèuzinho
fofa e singela.
Pelo menos hoje
não fiquei banguela.
Mas a vovòzinha,
cansada da espera,
xinga, bate, berra,
espanca e vocifera.
Êta velha chata!
Cadê o lobo mau?
Fica aí, sua inútil,
morre logo e tchau.
Sou Chapèuzinho
Verde-Amarelo.
Sorte da velhota
eu não ter um martelo.