sábado, abril 15, 2006

indecente

−Indecente.
−...
−Indecente.
−¿Quê?
−Indecente.
−¿Quê é indecente?
−Indecente.
−¿O q eu disse? ¿O q eu falei?
−Indecente.
−¿Quer parar de repetir isso? ¿Quê é indecente?
−Indecente.
−¿Vc quer dizer q o q fiz foi indecente? ¿Por quê é q não diz logo?
−Indecente.
−E vc teria feito diferente? Foi a única coisa q eu poderia ter feito. E a única coisa q fazia algum sentido naquela situação. ¿Ou vc acha q teria dado pra fazer outra coisa?
−Indecente.
−¿Quer parar? Essa é uma acusação totalmente descabida e vc não tem o menor motivo pra me reprovar desse jeito, já q livrei tua cara também.
−Indecente.
−Pq si não a gente tava lá até agora. E ¿tá pensando q foi fácil? Não foi fácil, não. Tanto, q vc nem tchungas. Eu é q tive q ter a cara de chegar lá e dizer tudo aquilo.
−Indecente.
−¿Ah, quer saber duma coisa? Tou fora. Ou vc me dá algum crédito, ou vai ficar aqui mofando...
−Indecente.
−...pq não vai ter ninguém mais pra te tirar daqui depois q eu for embora.
−Indecente.
−Porra! ¿Quer parar com isso?
−Indecente.
−Olha, cabou, tá? Fica aí vc, q vou cuidar de minha vida. Tou fora.
−Indecente.
−...
−Indecente.
−..
−Indecente.
−.
−Indecente.
−
−Indecente.

sexta-feira, março 31, 2006

in memoriam

Ontem de manhã... Acho q era de manhã. Não. Era de madrugada... É, acho q foi ontem de madrugada. Não. Era antes de ontem à tarde... Foi bem na hora em q eu estava ali no... no... Não. Eu estava lá, não ali. E agora me lembrei. Não foi antes de ontem à tarde. Foi ontem de manhã mesmo. Acho. E eu estava ali mesmo, não lá.

Pois bem, ontem de manhã eu estava ali e exatamente naquela hora e naquele lugar me esqueci do q estava fazendo.

É verdade!

Incrível, né?

quinta-feira, março 23, 2006

indigno

Sempre q posso, dou uma chegadinha ali na praça e me sento no banco e reparo nas pessoas passando com toda aquela dignidade. É nauseante ver toda aquela dignidade passando. Quero dizer q fico me sentindo tão humilhado e pequeno q tenho q erguer e entortar a cabeça pra ver toda aquela dignidade passar lá no alto perto das nuvens dum branco imaculado sobre um fundo azul genuinamente celestial.

Por segurança, me amparo no encosto do banco porque senão minha náusea logo me levaria ao chão onde mereço jazer. Às vezes algumas das pessoas q passam com toda aquela dignidade me sapecam um sopapo visual pra ver se aprendo uma lição, mas isso nunca resolve. Entre um digno e outro, fico dissimulando q estou me entretendo com o conteúdo duma de minhas orelhas.

Após uma ou duas dúzias de cidadãos passando com toda aquela dignidade, vou me acinzentando e, quando há uma pausa no fluxo quase contínuo de dignidades, me levanto. Ao voltar à alcova em q vivo, nem tento imitar o estilo épico de caminhar com toda aquela dignidade, já q nunca há na praça, nem poderia haver, outro nulo como eu reparando nas pessoas e nauseando-se e humilhando-se e acinzentando-se ao me ver passar com toda minha irrelevância.

domingo, fevereiro 26, 2006

rúcula

Sempre fui uma pessoa ridícula. O Fernandinho Pessoa podia se esconder atrás do Alvarinho de Campos. Eu não. Sempre fui ridículo em pessoa. Ridículo; ridículo mesmo, daquele nível de ridiculez q todo mundo comenta.

Eu digo coisas ridículas.
Eu falo coisas ridículas.
Eu faço coisas ridículas.
Eu caço coisas ridículas.
Eu cago coisas ridículas.
Eu pago coisas ridículas.
Eu paro coisas ridículas.

Dadada.

domingo, fevereiro 19, 2006

também acho

E olha q nem opinião formada sobre o assunto eu tenho. Até entendi o q quiseram dizer. Entendi todas as palavras, todos os argumentos. Entendi até as entrelinhas, as reticências e aspas. E posso garantir, com toda a firmeza q me é peculiar, q concordo, também acho, acompadro-me, sou dessa exata opinião, penso igual, tenho idêntica visão da coisa e partilho dos mesmos sentimentos.

segunda-feira, dezembro 19, 2005

o sono, a custo

Numa dessas manhãs quentes e suadas em q a porta da cozinha ao quintal é inadvertidamente aberta pelo cachorro esfomeado e maltratado daquele sujeito q às vezes passa por minha rua vendendo a preços abusivos as tranqueirinhas q diz comprar no Paraguay quando vai descansar de sua vida conjugal exageradamente histérica e interesseira, cansei.

Numa dessas tardes longas e chuvosas em q o corredor dos quartos à sala é sistemàticamente entulhado pelo filho ensimesmado e medíocre daquela senhora q às vezes entra em meu jardim oferecendo com gritos estridentes os doces q diz comprar na Argentina quando vai relaxar de sua vida profissional exageradamente sonsa e bisbilhoteira, deitei.

Numa dessas noites frias e tempestuosas em q o portão do jardim à rua é frenèticamente chacoalhado pela namorada excêntrica e desajustada daquele cara q às vezes sai de meu banheiro devolvendo com trejeitos esquisitos as revistas q diz comprar na Somália quando vai refletir sobre sua vida artística exageradamente desregrada e matreira, dormi.

Às vezes, penso em acordar.

terça-feira, novembro 15, 2005

nuvem padrão

lá vem a nuvem padrão
descendo pelos trilhos do céu
ela vem toda certinha
imutável, bonitinha
redondinha dum jeitinho padrão

domingo, outubro 09, 2005

"deixo a vida para entrar na história"

O Dia do Desforró

Quando olhei o Serra ardendo
Qual Figueiredo João,
Eu perguntei, "Dirceu, meu réu,
¿Será que eu ganho essa eleição?"

Que brasileiro, que canalha
Bota fé no mensalão?
Por causa dele, perdi meu gado:
Dedou na sede Seu Jeffersão.

Até mesmo a Casa Branca
Se espantou co'a corrupção.
Então eu disse, adeus Marisa,
Guardo no umbigo meu coração.

quinta-feira, outubro 06, 2005

aporréia

é bem sensato
ser chato
é mais legal
que ser mau

é bem distinto
ter pinto
é menos tabu
que ter cu

quinta-feira, setembro 29, 2005

sou mau

Sou um homem muito mau.

Minha maldade não tem limites. Peco em pensamento, palavras e atos; principalmente em pensamento. As péssimas maldades q já pensei, planejei e arquitetei dariam um fim nojento a várias humanidades. Em palavras, já criei tantos mal-estares, insultos e inimizades q às vezes me surpreendo por não estar mofando num presídio. Em atos, sou mais circunspecto, pois sou mau mas não sou idiota de expor minha vileza à vingança do vulgacho.

Certa feita, sentado ao corredor num ônibus semi-lotado e lendo o Dialogus de Rabštejna, senti q alguém me empurrava levemente de lado, ergui os olhos e vi q uma mulher grávida de 4 meses e sua filhinha de 7 anos me davam aquele olhar de 'quero sentar' q aprenderam num Curso de Etiqueta Passiva qualquer. Ora, eu estava lendo, saco. Além de me distrair do livro, ainda queriam meu assento! Meu olhar de volta disse, claramente, "¿Não sabem q Livro é Cultura? ¿Acham q Cultura deve ceder lugar ao conforto? Barbárie!"

Sempre q vejo um pedinte de rua, sei q tenho basicamente três opções: (1) dou uma pequena esmola; (2) levo o cara para o recanto de meu lar, dou-lhe um banho e roupas limpas, e o ajudo pouco a pouco a fazer sua vida dando-lhe educação e oportunidades; e (3) pego um machado bem afiado, retalho seu corpo em mil carnes moídas e jogo tudo num rio poluído qualquer. Em minha maldade de sangue podre, obviamente opto por aquilo q lhe fará mais mal: dou a esmola; e não por caridade, mas porque sei q a esmola não vai resolver nenhum de seus problemas, vai ajudar a aumentar sua dependência da caridade alheia, e vai pouco a pouco tranformar seu cérebro numa meleca inútil. Essa opção também ajuda a garantir q o pedinte vai encher o saco de muitas outras pessoas.

Às vezes, me sinto tão mau, mas tão mau, q até poderia vandalizar livros de biblioteca, buzinar em frente a hospitais e reclamar da comida com o garçom.

domingo, setembro 25, 2005

vírgula

A vírgula, desconfio, é, por si, inútil, equívoca, e, talvez, ambígua, embora, possivelmente, ninguém, q eu, realmente, conheça, tenha, convincentemente, criticado, ou, até, condenado, em palavras, seu uso, digamos, indiscriminado. Dizem, impensadamente, decerto, q, quase sempre, a vírgula, em si, representa, pasmem, uma pausa, mas, insisto, vocês, certamente, concordarão, imagino, q, ao contrário, muitas, senão, quiçá, todas elas, invariavelmente, atrapalham, mais, por certo, do q, de fato, auxiliam, como deveriam, a leitura. Quem, como eu, utiliza, com moderação, a vírgula, consegue, sem esforço, fazer-se, assim, entender.

terça-feira, setembro 20, 2005

as eras e o sou

Acho q pouca gente pode, como eu, se vangloriar de ter uma linhagem q remonte a Mñgbl, q viveu de 153.927 aC a 153.898 aC ali perto do lugar onde milênios mais tarde seu descendente Gundgo o Fétido contaria a primeira piada da história da humanidade – q, logicamente, ninguém entendeu de primeira pois, mesmo naquela era, pouca gente podia, como eu, se vangloriar de ter uma linhagem q remontasse a Mñgbl, o grande estripador das tribos de nñomus, aquela gentalha.

Até mesmo hoje em dia, o senso de humor de um legítimo 6x10³neto do grande Mñgbl, como eu, passa despercebido pela resto da (haha) humanidade. Às vezes é chato – posso dizê-lo, com grande humildade – pois dizer coisas engraçadíssimas sem q ninguém à volta se dê conta é o pior pesadelo da inteligência. Há circunstantes q chegam a se ofender com um mero aparte em pleonasmo anacrato-metonímico q deixo escapar espontaneamente entre uma alusão a Espinosa e uma citação do rebus epistolarium putridus. Não fosse minha adorada esposa e saco-de-risadas, com quem com certeza vivo in6x10³cestuosamente, eu me sentiria abjetamente só e desapoiado neste mundo de tacanhos pseudo-esnobes de todas as raças e cores.

Racismo? ¿O q é essa picuinha insossa perto do q sinto eu?

segunda-feira, setembro 19, 2005

grande parte da história

Muito me agradou saber ontem q meu bisavô materno conheceu minha bisavó materna como conseqüência da feliz confluência de uma conferência sobre a consciência em Viena e de uma encomenda de uma merenda a uma fazenda-moenda em Salzburgo. E ¿não é q é verdade? Lá estava meu bisavô conferenciando e minha bisavó cozinhando quando, sem mais nem menos, a merenda se extraviou e foi parar na estalagem onde se hospedava ele. Comeu-a de se empapuçar, adorou, perguntou quem cozinhou, com ela casou, e comeu-a.

Resultado, após um século: eu.

domingo, setembro 18, 2005

o cuco

Não consigo lembrar ninguém q seja eu. Dias atrás, olhei no espelhinho atrás do pêndulo do relógio de cuco da sala de jantar do apartamento da irmã de criação da mulher de meu irmão, e vi dois olhos me olhando. Q vergonha. Tem gente q não se enxerga.