terça-feira, outubro 28, 2008
terça-feira, outubro 14, 2008
domingo, agosto 24, 2008
bronze Brasil
Onde brilha e bruxuleia aquela tocha,
a brabeza brasileira já não brocha
mas o atleta desta terra ainda peca:
na penúltima braçada é que ele breca.
Sabre, saibro, jogo, briga e arco-e-flecha,
lá está o cabra descobrindo alguma brecha,
uma zebra que acochambre sua bravata
sob a sombra desbragada do ouro e prata.
Ouro é brega, lembra cobre em liga vil;
prata é sobra, lembra palha de bombril;
só o bronze traz ao bróder nobre fama
celebrada com o brinde duma brahma.
E o brejeiro povo brando e alquebrado,
quando vê brotar o brio redobrado
duma cãimbra brusca ou dor nos ombros breve
diz que o time de um, de cinco ou seis ou onze,
calibrando a fibra pra chegar ao bronze,
vale ouro, mesmo que outro peito o leve.
[poema inspirado pelo hilariante blogue Bronze Brasil.]
a brabeza brasileira já não brocha
mas o atleta desta terra ainda peca:
na penúltima braçada é que ele breca.
Sabre, saibro, jogo, briga e arco-e-flecha,
lá está o cabra descobrindo alguma brecha,
uma zebra que acochambre sua bravata
sob a sombra desbragada do ouro e prata.
Ouro é brega, lembra cobre em liga vil;
prata é sobra, lembra palha de bombril;
só o bronze traz ao bróder nobre fama
celebrada com o brinde duma brahma.
E o brejeiro povo brando e alquebrado,
quando vê brotar o brio redobrado
duma cãimbra brusca ou dor nos ombros breve
diz que o time de um, de cinco ou seis ou onze,
calibrando a fibra pra chegar ao bronze,
vale ouro, mesmo que outro peito o leve.
[poema inspirado pelo hilariante blogue Bronze Brasil.]
sexta-feira, agosto 15, 2008
minhas verdades
Antes q alguém se apresse a me julgar sem saber, aqui vão algumas opiniões irredutíveis:
• o sexo dos anjos é neutrino
• quem nasceu primeiro foi a galinha
• quem te viu tem tevê
• o sexo dos anjos é neutrino
• quem nasceu primeiro foi a galinha
• quem te viu tem tevê
domingo, agosto 03, 2008
em teoria tudo dá certo
tem aquela anedota do cara q entra numa loja querendo comprar um artigo
-¿qual é o preço?
-cem pratas
-¡¿CEM pratas?! o preço na loja da esquina é só setenta
-e ¿por que não comprou lá?
-tava em falta lá
-ah, quando AQUI tá em falta, o preço é cinqüenta
-¿qual é o preço?
-cem pratas
-¡¿CEM pratas?! o preço na loja da esquina é só setenta
-e ¿por que não comprou lá?
-tava em falta lá
-ah, quando AQUI tá em falta, o preço é cinqüenta
terça-feira, julho 15, 2008
pessoas q respeito - I
Uns quinze anos atrás, o hotel Crowne Plaza da R Frei Caneca promovia em seu auditório umas noitadas de música q varavam a noite. Grandes músicos subiam ao palco pra dar uma canja, e às altas horas da madrugada, quando tudo terminava, o restaurante do hotel servia canja. Havia noites voluptuosas com grandes virtuoses e noites decepcionantes com os grandes desafinantes.
Por aquela época, eu andava com meu amigo Wanderlei Cunha, um carioca do Estácio, parecido com o Moe dos Três Patetas, trompetista talentosíssimo e ótima pessoa; se tem um defeito, é q sempre está com a cabeça três compassos adiante do momento.
Ou assim me parecia.
Uma tarde o encontrei por acaso na Oscar Freire, perto de onde ele morava. Me disse q aquela noite ia dar uma canja no Crowne Plaza. Perguntei com quem.
–Uma banda de jazz (ele pronuncia 'jaz', não 'djéz') duns compadres aí. Dois temas. Tão precisando dum gás.
O Wanderlei tinha umas teorias de performance q eu raramente entendia. Eu achava q eram coisa de trompetista. O trompete é um dos instrumentos mais difíceis e paradoxalmente mais delicados. Segundo o q eu entendia, quando um trompetista toca à frente duma banda, ela tem q soar como um carro perfeitamente regulado e limpo, com os pára-choques cromados e polidos zunindo num estrada impecável: qqer peça fora de lugar e o trompetista derrapa e dá de cara num muro. Se a banda desafina ou faz algo muito inesperado, o trompetista tem uma dor física nos lábios e dentes.
Era difícil tocar samba com ele. Samba de paulista nunca deleitava seus ouvidos cariocas. "Não tá explicado," ele reclamava. Samba tinha q soar "explicado", e ele explicava e explicava. Não dava bola fora, nunca; mas às vezes músico só quer tocar, né?
–¿Como assim, precisando dum gás?
–Os caras tão com uma banda afiada, mas tocam redondinho demais, sem cor. Tá faltando um tchan, manja? Eles solam e tal, e a platéia aplaude bonitinho no fim da música. Alguém precisa levantar o público, fazer neguinho erguer os braços no meio do solo, aplaudir e gritar êêêêê.
–Mas se o som deles é pra ser redondinho e sem cor, ué... (Eu achava q tem lugar pra todo mundo. Ainda acho. Um pouco.)
–Não tem essa. O público vai em show pra ouvir emoção; não vai pra admirar. Dá um rolê lá, cara, vc vai ver.
Fui.
Lembro q o nome do grupo era um trocadilho em inglês. Doesn't bode well. (Isso não é o nome da banda; é o q pensei eu quando vi o nome.) Uma banda competente, timbres bem encaixados, um show redondinho. O público aplaudia comedido.
Perto do fim, subiu ao palco o Wanderlei.
Tocaram um tema previamente ensaiado; aquela coisa cool, quase dava pra enxergar tudo como foto em branco & preto, ternos listradinhos e alguém segurando um cigarro com a fumaça pairando.
Entregaram pro Wanderlei solar.
Começou de mansinho, tateando o lugar e o momento. A banda segurava a onda. Ele estava agora ao volante dum carro com um pára-choque cromadinho num asfalto lisinho. As frases começaram a brotar, e foi só aí, depois de uma hora de show, q o público entendeu pra quê serve uma banda redondinha. O improviso acelerou, foi complicando e explicando. Cada nota vibrava; cada idéia começava, tinha seu momento de glória e se encaixava na seguinte. O clímax veio como uma explosão inevitável, com ritmos e riffs contagiantes e... explicados.
E foi aí q aconteceu. Enquanto o clímax ia chegando a um lugar totalmente ali, dedicado àquela platéia, àquele momento, àquela canja, e entregue a nós como um presente, o público inteiro não resistiu: ergueu os braços, aplaudiu, gritou longos êêês e ôôôs de arroubo e curtos ús de prazer, assobiou, urrou e deu risada.
A parte da risada era eu. Só eu sabia o q realmente estava acontecendo. Ele havia dito o q ia fazer e fez. Em menos de cinco minutos de palco, tinha feito uma platéia inteira entender uma coisa inexplicável e abrir um sorriso no rosto. Eu ria também porque ali eu soube q às vezes não era o Wanderlei q estava três compassos adiante do momento; às vezes era eu q estava dois compassos atrás.
Esperei o Wanderlei na saída.
–Cara, eu queria comprar um chapéu só pra tirar ele pra vc.
Ele riu. A música é só um momento. Ele já estava pensando no seguinte.
Por aquela época, eu andava com meu amigo Wanderlei Cunha, um carioca do Estácio, parecido com o Moe dos Três Patetas, trompetista talentosíssimo e ótima pessoa; se tem um defeito, é q sempre está com a cabeça três compassos adiante do momento.
Ou assim me parecia.
Uma tarde o encontrei por acaso na Oscar Freire, perto de onde ele morava. Me disse q aquela noite ia dar uma canja no Crowne Plaza. Perguntei com quem.
–Uma banda de jazz (ele pronuncia 'jaz', não 'djéz') duns compadres aí. Dois temas. Tão precisando dum gás.
O Wanderlei tinha umas teorias de performance q eu raramente entendia. Eu achava q eram coisa de trompetista. O trompete é um dos instrumentos mais difíceis e paradoxalmente mais delicados. Segundo o q eu entendia, quando um trompetista toca à frente duma banda, ela tem q soar como um carro perfeitamente regulado e limpo, com os pára-choques cromados e polidos zunindo num estrada impecável: qqer peça fora de lugar e o trompetista derrapa e dá de cara num muro. Se a banda desafina ou faz algo muito inesperado, o trompetista tem uma dor física nos lábios e dentes.
Era difícil tocar samba com ele. Samba de paulista nunca deleitava seus ouvidos cariocas. "Não tá explicado," ele reclamava. Samba tinha q soar "explicado", e ele explicava e explicava. Não dava bola fora, nunca; mas às vezes músico só quer tocar, né?
–¿Como assim, precisando dum gás?
–Os caras tão com uma banda afiada, mas tocam redondinho demais, sem cor. Tá faltando um tchan, manja? Eles solam e tal, e a platéia aplaude bonitinho no fim da música. Alguém precisa levantar o público, fazer neguinho erguer os braços no meio do solo, aplaudir e gritar êêêêê.
–Mas se o som deles é pra ser redondinho e sem cor, ué... (Eu achava q tem lugar pra todo mundo. Ainda acho. Um pouco.)
–Não tem essa. O público vai em show pra ouvir emoção; não vai pra admirar. Dá um rolê lá, cara, vc vai ver.
Fui.
Lembro q o nome do grupo era um trocadilho em inglês. Doesn't bode well. (Isso não é o nome da banda; é o q pensei eu quando vi o nome.) Uma banda competente, timbres bem encaixados, um show redondinho. O público aplaudia comedido.
Perto do fim, subiu ao palco o Wanderlei.
Tocaram um tema previamente ensaiado; aquela coisa cool, quase dava pra enxergar tudo como foto em branco & preto, ternos listradinhos e alguém segurando um cigarro com a fumaça pairando.
Entregaram pro Wanderlei solar.
Começou de mansinho, tateando o lugar e o momento. A banda segurava a onda. Ele estava agora ao volante dum carro com um pára-choque cromadinho num asfalto lisinho. As frases começaram a brotar, e foi só aí, depois de uma hora de show, q o público entendeu pra quê serve uma banda redondinha. O improviso acelerou, foi complicando e explicando. Cada nota vibrava; cada idéia começava, tinha seu momento de glória e se encaixava na seguinte. O clímax veio como uma explosão inevitável, com ritmos e riffs contagiantes e... explicados.
E foi aí q aconteceu. Enquanto o clímax ia chegando a um lugar totalmente ali, dedicado àquela platéia, àquele momento, àquela canja, e entregue a nós como um presente, o público inteiro não resistiu: ergueu os braços, aplaudiu, gritou longos êêês e ôôôs de arroubo e curtos ús de prazer, assobiou, urrou e deu risada.
A parte da risada era eu. Só eu sabia o q realmente estava acontecendo. Ele havia dito o q ia fazer e fez. Em menos de cinco minutos de palco, tinha feito uma platéia inteira entender uma coisa inexplicável e abrir um sorriso no rosto. Eu ria também porque ali eu soube q às vezes não era o Wanderlei q estava três compassos adiante do momento; às vezes era eu q estava dois compassos atrás.
Esperei o Wanderlei na saída.
–Cara, eu queria comprar um chapéu só pra tirar ele pra vc.
Ele riu. A música é só um momento. Ele já estava pensando no seguinte.
quarta-feira, julho 02, 2008
segunda-feira, junho 16, 2008
prédios de barro
Morar em prédio tem suas vantagens. Vc tem a opção de subir e descer de escada ou de elevador.
Se de escada, pode ao mesmo tempo se exercitar e filosofar sobre a decadência do mundo. Se de elevador, sempre aparece a chance de conhecer pessoas q, sob ALGUM ponto de vista, devem ser mìnimamente interessantes. Digo "devem ser" por uma questão filosófica. Qdo era adolescente, no meio de todas aquelas distorções da percepção q atormentam os jovens, reconheci q pràticamente QUALQUER pessoa poderia vir a se tornar importante e talvez interessante pra mim, assim como qualquer assunto. E é nesse espírito de mente aberta q agora despejo estas palavras sobre o leitor.
Como disse, morar em prédio tem suas vantagens. Mas acho q vc tem q ser um pouco desumano pra PREFERIR morar em prédio. Uma casa com dois quartos, sala, cozinha e banheiro, tudo ao rés do chão, é apenas um espaço circunscrito q alguém pode chamar de lar. Mas empilhe quinze ou vinte cópias dessa mesma planta formando um prédio, e um problema insolúvel começa a se amontoar.
Tudo q sobe tem q descer. A dona-de-casa, digo, a dona-de-apartamento vai às compras na feira ou no mercado, traz um carrinho cheio de carnes, repolhos, mamões, pimentas, &c, leva aquilo tudo de elevador até seu apartamento, passa a semana toda preparando e comendo aquilo tudo... e daí? ¿Como é q aquilo q subiu no elevador vai descer de novo?
Moro no nono andar dum edifico com quinze. Um apartamento simples, nenhum rebusque. Da sala aos quartos há um pequeno corredor, e nele à direita o banheiro. Suponho q os arquitetos –pessoas de bom senso– disponham o banheiro a meio caminho entre a sala e os quartos pra q ele sirva também às visitas. Pois as visitas também sobem e também têm q descer, e trazem pra cima coisas q precisam voltar pra baixo de um modo ou de outro.
Pois estava eu outro dia na sala com uma visita, qdo esta honrou a previsão do arquiteto e precisou, digamos assim, virar à direita no corredor. Não é de meu feitio imaginar o q se passa entre azulejos. Acho q todos nós cagamos. Giselle Bündchen caga. Jude Law caga. Todos os presidentes do Brasil até hoje cagaram. Minha mãe cagava. O papa caga. Você caga. A rainha da Inglaterra caga e peida. Nem sempre o cagar chega aos ouvidos alheios. Mas pelo menos dessa vez, com essa visita, chegou.
Até aí nada demais. A volta da visita à sala continuaria o prazer de sua presença exatamente como dantes. Mas como eu estava, por assim dizer, de ouvidos abertos e ali bem do outro lado da parede, ouvi um outro som surgir, um som mais suave, mais distante, um som q penetrou minha orelha, estremeceu meus tímpanos e instalou em meu ser uma revelação ainda mais profunda sobre o dia-a-dia do arquiteto.
Visualize o problema. Toda a instalação hidráulica de meu banheiro está na parede q este compartilha com a sala. Já a instalação sanitária sai pelo piso e, a caminho do esgoto, desce por um pilar até o chão. Pois bem. Meu prédio tem quatro apartamentos por andar, perfazendo sessenta apartamentos no prédio. Presumindo q todos esses apartamentos tenham instalações sanitárias similares, gente morando, visitas q cagam &c, ¿onde é q moramos os condôminos, se não numa estrutura contìnuamente percorrida por fezes, urina, vomições e catamênios? ¿Quê é um edifício residencial se não um grupo de pessoas rodeadas por tubulações onde regularmente descem cocô, xixi, vômitos e menstruações? entremeadas por fios de bosta, mijo, comida podre e sangue?
Me compadeço dos moradores do primeiro andar, essa gente infeliz ensanduichada entre as neuroses da rua e os dejetos q não cessam de escorrer a sua volta. Jamais têm um minuto de paz, atormentados por sons indefinidos vindos de dentro da parede, seu sono abalado por rumores excrescentes no meio da noite. Sempre vejo moradores do primeiro andar evacuando o edifício de manhã com o alívio estampado no rosto, ou à noite arrastando os pés de volta a seus lares pejados. Quando encontro a triste senhora do 14 no saguão do prédio, e vejo seu rosto destroçado por uma constante amargura privada, um ânimo submerso numa fossa permanente, faço questão de lhe abrir a porta, ajudá-la com as compras, distraí-la por um momento. Ela me lança um olhar marrom, um sorriso caído, com sua maquiagem descuidadamente borrada. Ela sabe q no mesmo edifício há moradores menos infelizes do q ela, e eu jamais a ofenderia convidando-a pra uma visita ao nono andar.
O caso do casalzinho do 11 é talvez pior. Instalados ali após uma lua de mel numa montanha distante dos dejetos humanos, há dois anos amargam a lenta bostificação de seu romance –o sexo selvagem nas manhãs de domingo pouco a pouco se diluindo na diarréia matinal dos quatorze andares acima de seu leito. Antes, arfavam sorrindo cansados; hoje, estão esgotados já ao começar, e ao fim apenas se entreolham enfezados. Eles mesmos já se aliviaram das inibições e peidam-se mùtuamente sem constrições. Já aprenderam q o romantismo não sobrevive ao condomínio.
E este é apenas UM edifício. A cidade come e caga num cliclo imparável, e as milhares de torres nela são como coleções de tubos digestivos de pessoas magras ou gordas, ricas ou pobres, ingerindo alimentos e excretando fezes, engolindo comida e produzindo cocô, recebendo delícias e expelindo merda. Na cidade q esparrama sua urbanorréia, cada prédio ridìculamente se esforça pra manter sua aparência de assepsia cartesiana, enquando tortura os esquizóides moradores diàriamente com os ruídos ocos e fétidos nos intestinos em seu esqueleto.
Se de escada, pode ao mesmo tempo se exercitar e filosofar sobre a decadência do mundo. Se de elevador, sempre aparece a chance de conhecer pessoas q, sob ALGUM ponto de vista, devem ser mìnimamente interessantes. Digo "devem ser" por uma questão filosófica. Qdo era adolescente, no meio de todas aquelas distorções da percepção q atormentam os jovens, reconheci q pràticamente QUALQUER pessoa poderia vir a se tornar importante e talvez interessante pra mim, assim como qualquer assunto. E é nesse espírito de mente aberta q agora despejo estas palavras sobre o leitor.
Como disse, morar em prédio tem suas vantagens. Mas acho q vc tem q ser um pouco desumano pra PREFERIR morar em prédio. Uma casa com dois quartos, sala, cozinha e banheiro, tudo ao rés do chão, é apenas um espaço circunscrito q alguém pode chamar de lar. Mas empilhe quinze ou vinte cópias dessa mesma planta formando um prédio, e um problema insolúvel começa a se amontoar.
Tudo q sobe tem q descer. A dona-de-casa, digo, a dona-de-apartamento vai às compras na feira ou no mercado, traz um carrinho cheio de carnes, repolhos, mamões, pimentas, &c, leva aquilo tudo de elevador até seu apartamento, passa a semana toda preparando e comendo aquilo tudo... e daí? ¿Como é q aquilo q subiu no elevador vai descer de novo?
Moro no nono andar dum edifico com quinze. Um apartamento simples, nenhum rebusque. Da sala aos quartos há um pequeno corredor, e nele à direita o banheiro. Suponho q os arquitetos –pessoas de bom senso– disponham o banheiro a meio caminho entre a sala e os quartos pra q ele sirva também às visitas. Pois as visitas também sobem e também têm q descer, e trazem pra cima coisas q precisam voltar pra baixo de um modo ou de outro.
Pois estava eu outro dia na sala com uma visita, qdo esta honrou a previsão do arquiteto e precisou, digamos assim, virar à direita no corredor. Não é de meu feitio imaginar o q se passa entre azulejos. Acho q todos nós cagamos. Giselle Bündchen caga. Jude Law caga. Todos os presidentes do Brasil até hoje cagaram. Minha mãe cagava. O papa caga. Você caga. A rainha da Inglaterra caga e peida. Nem sempre o cagar chega aos ouvidos alheios. Mas pelo menos dessa vez, com essa visita, chegou.
Até aí nada demais. A volta da visita à sala continuaria o prazer de sua presença exatamente como dantes. Mas como eu estava, por assim dizer, de ouvidos abertos e ali bem do outro lado da parede, ouvi um outro som surgir, um som mais suave, mais distante, um som q penetrou minha orelha, estremeceu meus tímpanos e instalou em meu ser uma revelação ainda mais profunda sobre o dia-a-dia do arquiteto.
Visualize o problema. Toda a instalação hidráulica de meu banheiro está na parede q este compartilha com a sala. Já a instalação sanitária sai pelo piso e, a caminho do esgoto, desce por um pilar até o chão. Pois bem. Meu prédio tem quatro apartamentos por andar, perfazendo sessenta apartamentos no prédio. Presumindo q todos esses apartamentos tenham instalações sanitárias similares, gente morando, visitas q cagam &c, ¿onde é q moramos os condôminos, se não numa estrutura contìnuamente percorrida por fezes, urina, vomições e catamênios? ¿Quê é um edifício residencial se não um grupo de pessoas rodeadas por tubulações onde regularmente descem cocô, xixi, vômitos e menstruações? entremeadas por fios de bosta, mijo, comida podre e sangue?
Me compadeço dos moradores do primeiro andar, essa gente infeliz ensanduichada entre as neuroses da rua e os dejetos q não cessam de escorrer a sua volta. Jamais têm um minuto de paz, atormentados por sons indefinidos vindos de dentro da parede, seu sono abalado por rumores excrescentes no meio da noite. Sempre vejo moradores do primeiro andar evacuando o edifício de manhã com o alívio estampado no rosto, ou à noite arrastando os pés de volta a seus lares pejados. Quando encontro a triste senhora do 14 no saguão do prédio, e vejo seu rosto destroçado por uma constante amargura privada, um ânimo submerso numa fossa permanente, faço questão de lhe abrir a porta, ajudá-la com as compras, distraí-la por um momento. Ela me lança um olhar marrom, um sorriso caído, com sua maquiagem descuidadamente borrada. Ela sabe q no mesmo edifício há moradores menos infelizes do q ela, e eu jamais a ofenderia convidando-a pra uma visita ao nono andar.
O caso do casalzinho do 11 é talvez pior. Instalados ali após uma lua de mel numa montanha distante dos dejetos humanos, há dois anos amargam a lenta bostificação de seu romance –o sexo selvagem nas manhãs de domingo pouco a pouco se diluindo na diarréia matinal dos quatorze andares acima de seu leito. Antes, arfavam sorrindo cansados; hoje, estão esgotados já ao começar, e ao fim apenas se entreolham enfezados. Eles mesmos já se aliviaram das inibições e peidam-se mùtuamente sem constrições. Já aprenderam q o romantismo não sobrevive ao condomínio.
E este é apenas UM edifício. A cidade come e caga num cliclo imparável, e as milhares de torres nela são como coleções de tubos digestivos de pessoas magras ou gordas, ricas ou pobres, ingerindo alimentos e excretando fezes, engolindo comida e produzindo cocô, recebendo delícias e expelindo merda. Na cidade q esparrama sua urbanorréia, cada prédio ridìculamente se esforça pra manter sua aparência de assepsia cartesiana, enquando tortura os esquizóides moradores diàriamente com os ruídos ocos e fétidos nos intestinos em seu esqueleto.
quarta-feira, maio 21, 2008
quinta-feira, maio 01, 2008
ginas feros grimas tonas
cansei de rasgar tantas pá-
com rimas de sons infrutí-
depois de secar muitas lá-
cortei minhas proparoxí-
com rimas de sons infrutí-
depois de secar muitas lá-
cortei minhas proparoxí-
sábado, abril 26, 2008
clima pessoal
à força, se preciso, levarei meu guarda-chuva
às mais distantes plagas de meu clima pessoal
se não preciso mais de quem meu sol não coadjuva
também não peço nada a quem não seca meu varal
por isso destas linhas verte um nonsense de borrasca
em vossos inocentes olhos plenos de pudor
a fruta que germino nem um bom facão descasca
e o tempo putrefato não consegue decompor
se nuvens carregadas de gotinhas de aguarrás
no chão chovessem céus de fúria besta e corrosiva
talvez restasse ao homem dissolver-se como um lodo
mas nada que o algoz em nossos ossos liqüefaz
iguala em acidez o rol de enzimas de saliva
que jorram destas sílabas rimadas num engodo
às mais distantes plagas de meu clima pessoal
se não preciso mais de quem meu sol não coadjuva
também não peço nada a quem não seca meu varal
por isso destas linhas verte um nonsense de borrasca
em vossos inocentes olhos plenos de pudor
a fruta que germino nem um bom facão descasca
e o tempo putrefato não consegue decompor
se nuvens carregadas de gotinhas de aguarrás
no chão chovessem céus de fúria besta e corrosiva
talvez restasse ao homem dissolver-se como um lodo
mas nada que o algoz em nossos ossos liqüefaz
iguala em acidez o rol de enzimas de saliva
que jorram destas sílabas rimadas num engodo
segunda-feira, abril 21, 2008
sexta-feira, abril 11, 2008
advice to man
who is unsure about what to expect of lady acquaintance he sees almost every day, after she starts talking about another man and cancelling engagements.
The man who thinks a lady must belong
by right to him who sees her face most oft
will soon believe that Batman's tagalong
should stick to him until their minds go soft.
Now I think Robin has no business staying
well after Batman to Catgirl does marry
because 'tis obvious Robin should be playing
in quite a diff'rent band, not there to tarry.
Now if thy aim when cultivating her
was more for future gain than present cheer,
thou shouldst have known that girls do never err
by choosing men who can't live now and here.
'Tis best thou barkst up someone else's tree
for ten to one the lady wants not thee.
The man who thinks a lady must belong
by right to him who sees her face most oft
will soon believe that Batman's tagalong
should stick to him until their minds go soft.
Now I think Robin has no business staying
well after Batman to Catgirl does marry
because 'tis obvious Robin should be playing
in quite a diff'rent band, not there to tarry.
Now if thy aim when cultivating her
was more for future gain than present cheer,
thou shouldst have known that girls do never err
by choosing men who can't live now and here.
'Tis best thou barkst up someone else's tree
for ten to one the lady wants not thee.
segunda-feira, abril 07, 2008
terça-feira, março 11, 2008
advice to Josephine,
from HMS Pinafore, who's planning to elope with a common sailor in her father's ship because she knows her father will be against her love for the lad.
Your father knows what's best for you
You'd better not break this taboo.
He takes his ship across the sea,
See how he's stronger than is she.
The waves will try to hold her butt
But he will prove that she's no slut,
And sail her safely till she moors:
Morale does more than all amours.
Your father knows what's best for you
You'd better not break this taboo.
He takes his ship across the sea,
See how he's stronger than is she.
The waves will try to hold her butt
But he will prove that she's no slut,
And sail her safely till she moors:
Morale does more than all amours.
domingo, março 02, 2008
terça-feira, fevereiro 26, 2008
contemporizemos
A vida é curta e não há neste vasto mundo palavras suficientes pra q sequer duas pessoas se entendam mutuamente.
quarta-feira, fevereiro 13, 2008
further advice to George V,
who complains that previous advice overlooks that if his son claims the king is mad, Britain's fate will be seriously compromised.
Your love takes root, you wed your wife,
your seed is sown to breed new life.
But now your fruit is ripe to rot,
and you bemoan what you begot.
Bemoan my foot! You should delight
his true worth's known while you can fight!
Though he's a brute, your son won't win:
he's just a baddy, zonked in gin.
He's not astute to cast some doubt
on what his daddy's sure about
(though that's a moot point, I decree:
that you are mad is clear to me.)
To grab his loot he must make plain,
when lawyers quiz him, that your brain
is fast en route to lunch in Surrey.
But that's just fizz, you need not worry.
And I dispute your cause to fear
that claim of his. 'Tis hardly clear
what harm his suit could do to Brits,
whose pastime is to lose their wits.
Your love takes root, you wed your wife,
your seed is sown to breed new life.
But now your fruit is ripe to rot,
and you bemoan what you begot.
Bemoan my foot! You should delight
his true worth's known while you can fight!
Though he's a brute, your son won't win:
he's just a baddy, zonked in gin.
He's not astute to cast some doubt
on what his daddy's sure about
(though that's a moot point, I decree:
that you are mad is clear to me.)
To grab his loot he must make plain,
when lawyers quiz him, that your brain
is fast en route to lunch in Surrey.
But that's just fizz, you need not worry.
And I dispute your cause to fear
that claim of his. 'Tis hardly clear
what harm his suit could do to Brits,
whose pastime is to lose their wits.
domingo, fevereiro 10, 2008
advice to George V,
who complains that his son has turned out badly, has become a rake and threatens to claim his father is mad.
You rue as fact that he's a rake,
a foe to tact you would forsake.
But would you bet against your son,
whose fault as yet is having fun?
Let children go the way they choose:
they will do so by right or ruse;
just trust your genes, you need not gripe:
the kid who weans will soon be ripe.
And if you doubt your son's true worth
then there's no clout in your own birth.
You rue as fact that he's a rake,
a foe to tact you would forsake.
But would you bet against your son,
whose fault as yet is having fun?
Let children go the way they choose:
they will do so by right or ruse;
just trust your genes, you need not gripe:
the kid who weans will soon be ripe.
And if you doubt your son's true worth
then there's no clout in your own birth.
quinta-feira, janeiro 31, 2008
advice to Fanny Price,
from Mansfield Park, who burns for her cousin, wants him to burn for her in return and wonders how to make him turn his passions loose.
When cousins do ignite their hearts
and speed their blood by fits and starts,
they may forget that genes were meant
to mix with those of foreign bent,
for thwarted nature causes pains
to children born with crookéd veins.
You burn for him but still forget
you'll carbonize those you beget.
When cousins do ignite their hearts
and speed their blood by fits and starts,
they may forget that genes were meant
to mix with those of foreign bent,
for thwarted nature causes pains
to children born with crookéd veins.
You burn for him but still forget
you'll carbonize those you beget.
domingo, janeiro 20, 2008
advice do Abe Lincoln's mom,
who worries that he studies too much and does not learn about the pleasures of life.
A fact well-known to moms with boys
is that the brats have subtle ploys
to get their own ideas round
their folks' diktats to keep them sound.
I bet your kid pretends to study,
and borrow books, and gets all muddy,
but goes amid the slave-girls lewdly
to learn their nooks and grow up shrewdly.
Don't raise your knobbly hand at him
because the chances are not slim
a young man's hobby may become
a nation's stance against the scum.
A fact well-known to moms with boys
is that the brats have subtle ploys
to get their own ideas round
their folks' diktats to keep them sound.
I bet your kid pretends to study,
and borrow books, and gets all muddy,
but goes amid the slave-girls lewdly
to learn their nooks and grow up shrewdly.
Don't raise your knobbly hand at him
because the chances are not slim
a young man's hobby may become
a nation's stance against the scum.
quarta-feira, janeiro 16, 2008
advice to Henry Crawford,
from Mansfield Park, who cannot bear the thought that Fanny Price is going to marry someone else and may have discarded him because of his dalliance with another woman.
It's often said of women's choice
of men to share their life,
“The dowry must include a Royce
or wedlock ends in strife.”
But that belief's not wholly true:
some ladies love indeed.
Among these there are quite a few
whose noses never bleed.
And though I know not where Miss Price
belongs among that list,
I know you leave her cold as ice
–and that, sir, is the gist.
It's often said of women's choice
of men to share their life,
“The dowry must include a Royce
or wedlock ends in strife.”
But that belief's not wholly true:
some ladies love indeed.
Among these there are quite a few
whose noses never bleed.
And though I know not where Miss Price
belongs among that list,
I know you leave her cold as ice
–and that, sir, is the gist.
segunda-feira, janeiro 14, 2008
advice to Marie Antoinette,
who wonders what to do about the dreadful peasants who are revolting and insisting that they have no bread.
A dame like you has nought to worry
from scabby peasants at your gate:
their hands are numb, their eyes are blurry,
their hearts and minds are seventh-rate.
That they are hungry serves them well
for scrapping kale and craving bread.
So let them pound at your doorbell
there's nought to make you lose your head.
A dame like you has nought to worry
from scabby peasants at your gate:
their hands are numb, their eyes are blurry,
their hearts and minds are seventh-rate.
That they are hungry serves them well
for scrapping kale and craving bread.
So let them pound at your doorbell
there's nought to make you lose your head.
sábado, janeiro 12, 2008
advice to Valmont,
from Les Liaisons Dangereuses, on momentarily having second thoughts about death after being mortally wounded in a duel.
Perhaps it's worse to go on living
with conscience stabbing at your heart
with knives long, sharp and unforgiving
than with a single blow depart.
But since your death is now so near
– and one which you procured so keenly –
it's not, sir, in good taste to fear
an end that meets your type routinely.
A further evil stains your case:
you were a more adroit seducer
than most of us men on the chase.
So cheers to him who finished you, sir.
Perhaps it's worse to go on living
with conscience stabbing at your heart
with knives long, sharp and unforgiving
than with a single blow depart.
But since your death is now so near
– and one which you procured so keenly –
it's not, sir, in good taste to fear
an end that meets your type routinely.
A further evil stains your case:
you were a more adroit seducer
than most of us men on the chase.
So cheers to him who finished you, sir.
quinta-feira, janeiro 10, 2008
further advice to Huckleberry Finn,
who wasn't satisfied by previous advice and asks to be taught one or two important manners, just to keep the widow happy.
There's no set of manners to master
that might cure a social disaster.
There's only one rule,
you won't learn at school:
"Do everything slower, not faster."
If by this good rule you are bound,
I wager you'll soon be renowned
the sweetest of boys
who never annoys
the ladies, the snobs, or the crowned.
terça-feira, janeiro 08, 2008
advice to Scarlett O'Hara,
from Gone With the Wind, who asks if Rhett Butler will come back to her.
You are the sort of girl, I guess,
who teases men with 'no' and 'yes',
then 'no', then 'maybe yes and no',
till cows dry up and home they go.
Amid two loves you sit, I bet,
expecting pleasing vows from Rhett.
I toast to him who had the sense
to send you crashing off your fence.
A civil war may rage, I swear,
and billions die and fields go bare
before your ex will hear your claim,
the same old dame who shamed his name.
You are the sort of girl, I guess,
who teases men with 'no' and 'yes',
then 'no', then 'maybe yes and no',
till cows dry up and home they go.
Amid two loves you sit, I bet,
expecting pleasing vows from Rhett.
I toast to him who had the sense
to send you crashing off your fence.
A civil war may rage, I swear,
and billions die and fields go bare
before your ex will hear your claim,
the same old dame who shamed his name.
domingo, janeiro 06, 2008
advice to Huckleberry Finn,
who's tired of having Widow Douglas tell him to mind his manners, and wonders if they are really necessary.
The widow is under th'impression
that manners should be a reflection
of feelings we carry inside.
More often than not they are merely
a front to avoid showing clearly
the thoughts we had much better hide.
She must be in permanent terror
that making a slight little error
might nakedly show her dark side.
But why should you care if at table
the priggish old diner might label
your messiness undignified?
Your wild ways I urge you continue.
They prove there is much goodness in you,
and more: you're no Jekyll and Hyde.
The widow is under th'impression
that manners should be a reflection
of feelings we carry inside.
More often than not they are merely
a front to avoid showing clearly
the thoughts we had much better hide.
She must be in permanent terror
that making a slight little error
might nakedly show her dark side.
But why should you care if at table
the priggish old diner might label
your messiness undignified?
Your wild ways I urge you continue.
They prove there is much goodness in you,
and more: you're no Jekyll and Hyde.
sábado, janeiro 05, 2008
advice to Baroness Elsa Schraeder,
from The Sound of Music, on expressing a desire to marry the Captain, in spite of his seven children
My dear baroness!
You out of your senses?
Don't ever say yes:
just think of th'expenses!
Get out of that mess
before it commences.
I grant you the truth
that love should be blind;
but think of the youth
you must leave behind
with seven uncouth
li'l devils combined!
And cause for divorce
will start in a whiz:
I've heard from a source
– a housemaid of his –
the Captain's workforce
is where his heart is.
Indeed, he's most canny:
that nice Captain chap
would marry my granny
in less than a snap
to get him a nanny.
So, out! It's a Trapp.
My dear baroness!
You out of your senses?
Don't ever say yes:
just think of th'expenses!
Get out of that mess
before it commences.
I grant you the truth
that love should be blind;
but think of the youth
you must leave behind
with seven uncouth
li'l devils combined!
And cause for divorce
will start in a whiz:
I've heard from a source
– a housemaid of his –
the Captain's workforce
is where his heart is.
Indeed, he's most canny:
that nice Captain chap
would marry my granny
in less than a snap
to get him a nanny.
So, out! It's a Trapp.
quarta-feira, janeiro 02, 2008
paulinho da memória
minha memória foi pro fundo do baúúúúúaa
não haverá mais ilusããã-ão
quero lembrar, ela não deixa
alguém q ainda me deve um dinheirão
minha memória...
não haverá mais ilusããã-ão
quero lembrar, ela não deixa
alguém q ainda me deve um dinheirão
minha memória...